quarta-feira, 9 de abril de 2014

Guess Who



A música de B.B. King que mais me marca é uma balada blues açucarada, bobinha que só.

Mas foi a música que me acompanhou durante muito tempo, me ajudando a criar, escrever. Eu não tinha dinheiro para comprar CDs, e em Itariri e Peruíbe não chegava muita coisa. Então, quando uma editora lançou uma coleção de jazz e blues eu peguei logo o primeiro encarte.

Lá estava um disco do Concerto Midem em que Pat Matheny, BB King e Dave Brubeck transformavam minhas dores em canção (a coleção era a Jazz Masters, obrigado, Google!). Não tinha muito mais coisa que chegava às minhas mãos. O que aparecia na TV, especialmente na TV Cultura, eu transformava em fitas K7 no meu aparelho de som. O Concerto Midem foi uma das coisas que compramos para ter mesmo.

O disco, de um virtuosismo inacreditável, tinha um momento de grande simplicidade. Guess Who. Uma declaração de amor de um homem que esperará a eternidade amando uma mulher, esperando por ela. Ele pede para que ela abra o coração.

Na época (e lá se vão quase vinte anos), eu não tinha internet, tinha um inglês pobre e não conseguia traduzir o sotaque do Rei. Não entendia a letra, mas entendia o sentimento e visualizava um casal apaixonado dançando a última música antes que o rapaz fosse enviado para a guerra, ou algo assim. Um clichê. Exatamente como a música.

Ela me acompanhou nas madrugadas em que passei sentado na mesa de vidro de casa, olhando para o papel branco e buscando dentro de mim o que queria colocar para fora. Guess Who me traz isso. A memória dos contos e dos poemas da minha adolescência. As histórias melancólicas dos amores perdidos e não vividos.

Li a letra hoje e achei bonita. Simples, clichê e bonita. Mas nada é comum quando se trata do Rei. Mesmo a melancolia ganha novos tons. Sem conhecer o significado da música dei a ela uma história. A tradução da letra não a mudará. Aquilo que guardo em mim, da época de primeiras palavras não permito que se esvaia jamais.

quarta-feira, 19 de março de 2014

O escitor e a pipa

Com o tempo, as fantasias que nos cercam na infância vão sendo deixadas de lado. Vamos nos tornando mais austeros e maduros. Esta maturidade nos leva à faculdade, ao primeiro emprego, à casa própria, ao carro, à família.

No entanto, dentro do coração de cada um de nós, ainda existe uma pipa com rabiola enrolada que só está esperando a primeira fieira de fantasia para poder adejar contra o céu azul.

Escritores mantém essa pipa voando alto, sempre. São adultos com alma de criança. Precisam da fantasia e da imaginação pulsando forte para poderem viver. Diferente da maioria das pessoas, buscam sonhos, e não realizações.

Como a criança que transforma um galho em espada e sai pelo mundo para conquistar reinos e castelos, o escritor cria, com pena, mundos para conquistar, para se realizar.


Escritores são crianças em corpos de adultos que, em detrimento de uma vida comum, soltam pipa de vez em quando usando uma folha de papel em branco como céu para ser feliz.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Sucesso e esforço

Tem um certo tipo de sucesso que não quero fazer.

É o sucesso que depende do fracasso alheio. Conquistado por meio das pisadas sobre a cabeça de tantos outros que lutaram antes de mim. É o sucesso pelo sensacionalismo e não pela ética. Pelo marketing pessoal e não pela qualidade verdadeira. O sucesso sem esforço, conquistado na base do jeitinho, da lei de Gérson, do migué, da desonestidade. O sucesso pelo poder, pelo dinheiro, para poder estar acima dos outros.

O sucesso pelo sucesso, e nada mais.

Durante a vida, abrimos mão em favor de muitas coisas. Muitas vezes sem nem sequer notarmos. Quando vemos, a lama já está batendo no queixo e fica difícil sair da sujeira e tentar permanecer limpo. Sem percebermos, vamos nos atolando na zona de conforto de onde conseguimos um favor aqui, um benefício ali, uma "ajudinha" acolá, e, quando vemos, estamos tão presos a favores que perdemos o direito e a credibilidade. Quando pensamos estar indo para a frente estamos, na verdade, vendendo mais um pouquinho da nossa alma para o diabo.

Construir uma carreira em cima de critérios como credibilidade, ética e qualidade tem seu preço. Um preço  alto pelo qual temos de estar dispostos a pagar.

Sucesso? Não façamos questão dele. Vamos trabalhar pelo prazer de fazer, pelo gosto de fazer diferente, de vencer a si mesmo, de sair da zona de conforto que nos prende. Não vamos buscar conquistar uma grande casa, um carro do ano, um jatinho ou um barco para navegar por aí. Aqueles que fazem por fama, fortuna, poder, recebem seu prêmio por aqui mesmo.

Eu espero que, no futuro, eu seja lembrado como aquele que não se corrompeu. Mas que isso não faça de mim alguém especial, pois quero fazer, desta forma, parte de um grupo muito grande. O grupo daqueles que não se venderam.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Lulu, o feminismo mais machista que a internet pode proporcionar


As mulheres não estão querendo criar um espaço seu na sociedade. Estão querendo, sim, ocupar o espaço que é do homem.

Lembro da música de Joan Jett: "I wanna be where the boys are".

Mulheres deveriam querer estar onde devem estar, lutando por um espaço seu, marcado por suas características.

Lulu é a masculinização do feminino. É o princípio idiota do Femen, que põe peitos para fora para dizer que o homem não tem direito sobre o corpo da mulher. É a idiotização da gentileza, que determina que, ao abrir uma porta, puxar uma cadeira, ou ser gentil com uma mulher, o homem está alimentando um comportamento machista.

Este femimiminismo é diferente da luta honesta da mulher contra o homem opressor. Ao invés de reificar (transformar em objeto) o homem, a mulher deveria lutar para deixar de ser um.

O machismo é tão incutido nas mentes das mulheres que elas não enxergam quando estão lançando mão dele.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Lucy Alves, Parahyba

Lucy é uma xilogravura de sons curtidos em couro e madeira. É gosto de rubacão, queijo coalho, suco de graviola e jambo colhido nas ruas de João Pessoa.

Lucy é a bila amarela descendo na Barragem de São Félix em por do sol verdadeiro, e não plastificado ao som de um bolero qualquer.

Lucy é boneca de pano xaxando com sanfona em punho. É bemquerência no arroxo do forró.

Cada vez que toca esta sanfona me sobe um arrepio. Lucy é poesia com sorriso leve de quem não NEGA quem é.




Não consegui encontrar o vídeo novo, (dá para ver aqui, ó), mas a interpretação dela para "Qui nem Jiló", que está aí em cima, é de arrepiar. Um primeiro verso que faz toda a diferença, com um "gente" falado de entre os dentes. A coisa mais linda.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Papel social

A criança na Somália
Eu usava a história da foto de Kevin Carter quando dava aulas e palestras e falava sobre responsabilidade social e ética profissional. Quando perguntam até que ponto um fotógrafo tem que ir para cumprir seu trabalho e quando este limite é extrapolado e ele precisa se responsabilizar enquanto ser humano por outra vida que está correndo risco diante dele.

Kevin Carter cobriu as guerras étnicas que preconizaram o fim do Apartheid na África do Sul no início dos anos noventa. Ele e outros três fotógrafos de agências internacionais eram conhecidos como "Clube do Bang-bang" pois estavam sempre testemunhando mortes e conflitos e suas armas eram as câmeras.

Nestes conflitos, um dos colegas de Kevin foi alvejado. O que os outros três fizeram? Fotografaram o corpo do fotógrafo sendo carregado para a ambulância.

A criança vietnamita
A vida do menino pode ter se perdido, desconheço seu destino, e uma vida é uma vida, mas foi a foto de Kevin Carter o primeiro passo para que o mundo efetivamente olhasse para a fome no norte da África. Assim como a imagem da menina queimada de napalm foi um dos momentos mais marcantes da guerra do Vietnam.

Sem as imagens não teria sido possível repensar os fatos que elas relatam. Segundo um outro fotógrafo que estava no local, a fotografia teria sido um clique imediato, e Kevin expulsou o urubu assim que a imagem foi feita, levando o menino para um local seguro, onde foi alimentado.

O papel do fotógrafo é, antes de tudo, registrar a história para poder transforma-la. Mas é preciso ser cínico demais para ser indiferente à dor alheia. O sofrimento de Carter, que se matou em decorrência de problemas financeiros e por não conseguir conviver com a lembrança da dor que testemunhou, advém desta questão.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O amor e o homossexualismo nos tempos da cólera

Quando eu ainda namorava minha ex-esposa, muitos e muitos anos atrás, em um shopping de Santos, enquanto nos apaixonávamos em um banquinho de frente para um canto bem escondido do shopping (nem foi um amasso assim tão grande), um segurança chegou para nós e pediu que não demonstrássemos tamanho "entusiasmo" em nosso amor.

Sério. Era só um beijo entusiasmado. Nada demais, mas ele pediu que fizéssemos isso. Por se tratar de um lugar público, consideramos apropriado acatar a sugestão do policial e continuamos apenas conversando no banco de mãos dadas.

Isso já tem mais de dez anos. Dez anos atrás, nossa demonstração de amor era chocante para as senhoras que frequentavam os shoppings de Santos. No entanto, ainda hoje, eu não só respeitaria como acataria a decisão do segurança de nos pedir para parar. Acho que a minha liberdade termina onde começa a do outro, e, em um lugar público, isso deveria ficar mais evidente.

Pois bem, o preâmbulo é para, depois de algum tempo, emitir uma opinião sobre a declaração de que os seguranças do Shopping Tambiá seriam "instruídos" a impedir beijos homossexuais na praça de alimentação do shopping.

Não sei como eles agiriam diante deste fato. Não sei se são violentos (os defensores dos direitos dos homossexuais dirão que sim), não sei se são estúpidos (os defensores da moral e dos bons costumes dirão que não), e, sinceramente, não é isso que estou querendo discutir.

Seguranças que são bem treinados não agem com violência. Se a empresa que presta serviço ao Shopping não sabe treinar seus agentes, então o Shopping precisa encontrar outra agência para este serviço.

Pois bem. Se eu e minha esposa fôssemos impedidos de ter demonstrações efusivas de afeto, como beijos demorados, por exemplo, não acharia ruim. Certas demonstrações de afeto são, mesmo, constrangedoras para as pessoas em volta. E certas situações ainda exigem uma margem de compreensão que nossa sociedade, infelizmente, ainda não tem.

Se por um lado a sociedade não se sente preparada para certos tipos de demonstração de afeto, por outro, todos, e isso inclui homossexuais, têm direito, sim, a demonstrar carinho pela pessoa amada em lugares públicos. Não existe qualquer legislação que proíba as pessoas de fazerem isso em lugar público, desde que mantenham o decoro e tenham bom senso. Nada no Brasil impede o beijo gay, a não ser a cólera dos conservadores, a ira das bancadas evangélicas e as demonstrações hipócritas de pudicícia no país da bunda e do carnaval.

A declaração da dona do Café São Brás mostra que muitas pessoas ainda não estão prontas para ver que o amor, hoje, é demonstrado de forma bem diferente do que era no passado. No entanto, mesmo sem a devida "preparação", que seria o bom senso de respeitar as escolhas pessoais do outro, elas terão que ver e terão que aceitar. O mundo mudou, e não adianta encolerizar-se contra isto. É um direito e todos podem demonstrar seu afeto em público.

Só não exagerem, por favor.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Gravidade

A luta para nascer é retratada de forma inovadora
Sandra Bullock é como um feto lutando contra intempéries para nascer. Uma borboleta que, saindo do estado de lesma, encontra, no espaço, o casulo para tornar à vida.

Ficam para trás todas as amarguras. Só o que vale é sair do ventre, tornar à Terra e encontrar, nela, novas razões para viver.

A cena logo após ela entrar na estação espacial defende esta interpretação. Após livrar-se das roupas para caminhadas espaciais, em posição fetal, cercada de cabos de suporte de vida, cordões umbilicais que a mantém viva no espaço, ela descansa. Mas o parto é traumático, doloroso, difícil e sofrido, e a personagem precisa deixar o conforto em que está para lutar pela vida.

Os planos-sequência merecem a reverência que receberam de todos os críticos no mundo. Basta ver o trailer para entender a tensão existente no filme, e o desafio que deve ter sido filmar esta proposta. O 3D funciona de forma perfeita, lançando pedaços de satélites, naves, braços de captação, sondas, metal e tudo o mais contra o fundo escuro do espaço que absorve.

Alfonso Cuarón encontra, na estética silenciosa do espaço, o ruído necessário para nos fazer acreditar que é possível renascer dos piores problemas que enfrentamos. Basta não desistirmos, basta seguirmos em frente, basta acreditarmos que podemos arrebentar o casulo e voar alto novamente.

Ou, no caso, caminhar sobre a areia de uma praia perdida em algum lugar de um mundo que é nosso para redescobrirmos. Estar vertical após tanto tempo deitada, deixar as águas e migrar para a terra, crescer, evoluir, renascer.

Delicadeza

Minha vista
Alguém nas imediações do prédio ouve, todos os dias, neste mesmo horário, por volta das 9h40, a música "Aquarela", do Toquinho.

Não sei o que os outros trabalhadores pensam, mas para mim é um alento diante dos ruídos da cidade que me cerca.

João Pessoa não é nenhuma selva de pedra, e as pessoas não são indiferentes umas às outras, mas é interessante ser alcançado por uma sutileza como esta de vez em quando.

Especialmente quando, presos em escritórios, somos massacrados pelo stress do dia a dia.

Não que eu tenha muito o que reclamar, também, do meu escritório. A vista é uma panorâmica do centro da cidade, e o horizonte desaparece no meio da mata atlântica de um lado e do mar do outro, mas não é só de vista que se faz a harmonia em um local de trabalho.

São as delicadezas do dia que nos levam a acreditar na vida de forma a valoriza-la. No meio do trânsito caótico de João Pessoa (sim, não tem o tamanho de São Paulo, o que me faz chegar à conclusão que eu ficaria louco se morasse na metrópole), lembrar que alguém ouve Toquinho durante o dia me deixa muito.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Se Deus me ama do jeito que eu sou porque os seus pretensos servos tentam me mudar?

 Se Deus me ama do jeito que eu sou porque os seus pretensos servos tentam me mudar?

Pensei nisso hoje de manhã enquanto vinha para o trabalho e vi um adesivo de carro que dizia "Deus te ama como você é".

Se o amor de Deus é incondicional e irrestrito como se diz, e ele me ama como eu sou, então porque seus pretensos seguidores insistem para que passemos por uma transformação? Uma mudança completa de vida e de caráter?

Acho importante que nos livremos dos vícios, que desenvolvamos domínio próprio, que aprendamos a viver de forma mais austera, mas não aceito que se renegue o prazer, o amor, seja ele de qualquer forma que for.

Não se pode cobrar uma mudança de vida para que o cidadão se adeque a uma visão de mundo que contradiz a própria essência do que é pregado por ele.

Lembro, dos meus tempos de altares e púlpitos, e egos humanos sobrepujando a visão de Deus, de que uma frase muito comum era "venha como está".

Depois, uma série de mudanças era veladamente cobrada. Deixe o cigarro, deixe as mulheres, ouça esta música, leia este livro, pense neste assunto, vote neste político.

Tudo de acordo com uma "visão de Deus", que, em minha visão pessoal, era equivocada e superficial.

As pessoas passavam a se parecer. Para fazer parte daquele grupo, daquele clube, você passava a se vestir como eles, falar como eles, pensar como eles.

E então, aquele a quem Deus amava, abria mão de si mesmo em nome de uma visão de grupo. Permitia-se mudar para se sentir acolhido, aceito, fazendo parte de algo.

Se Deus me ama do jeito que eu sou, não vou mudar para satisfazer um grupo de narcisistas, que precisam refletir no outro a imagem "perfeita" de si mesmo.

domingo, 14 de outubro de 2012

Amada amiga




Por ser um contínuo viajante, não me conecto aos lugares de forma convencional. Cada localidade por onde passei é como um velho amigo, com sentimentos e histórias que compartilhamos e que, quando nos sentamos juntos, lembramos com risadas.

Lugares são, em minha mente, mais que simples lugares, adquirindo uma conotação especial. E poucos lugares são tão especiais para mim quanto meu velho amigo Guaraú.

Guaraú é uma praia incrustada no meio da mata da Juréia. Sua relação comigo era quase de amantes. O guaraú era como uma linda mulher que se escondia misteriosa por trás das curvas sinuosas de uma estrada estreita chamada vida. Guaraú me ensinou o que é solidão e o que é alegria. Compartilhou comigo momentos de felicidade (pescarias, descobertas) e a desilusão da perda (a morte do meu avô). Guaraú me fez descobrir mais sobre mim do que a grande maioria das pessoas que passaram pela minha vida.

Sinto falta das areias macias de suas ruas esculpidas no meio do matagal. As casas esparsas ao longo da Rua do Telégrafo, por onde andava de bicicleta. Guaraú, velha amiga, amante de águas salgadas, sinto saudades de você.

Porém, minha amada morreu. As coisas não são como nos lembramos dela. O grande problema da realidade é que ela vem para esmagar nossos sonhos e nossas lembranças e nos traz amargura à boca.

As ruas de areia branca foram substituídas por asfalto, e os rios que éramos obrigados a atravessar de carro foram cobertos por pontes, como se fossem um sangramento a ser estancado. Eram lágrimas de quem sabia o que a esperava. De quem sabia que ia morrer.

A docilidade da noite escura de lua grande que invadia a praia foi trocada por holofotes amarelos ao longo da orla. O romantismo acabou, minha amante se foi, já não existe mais.

Porém, ficou a lembrança de quem éramos juntos em minhas brincadeiras infantis e meus primeiros arroubos juvenis ainda me dá calafrios de quando se vê a primeira namorada. O primeiro amor é sempre duradouro e perene, mesmo que o objeto amado tenha morrido.

Foi triste o destino de minha amada Guaraú. Minha velha amiga se foi. Quando olho para trás e vejo o que passamos, sinto, mais do que saudades, a certeza de que vivemos muito, compartilhamos muito, dividimos muito. Em suas areias sentava-me para ver o mar e acompanhar o desenho que a lua fazia em suas águas. Conversava com ela e esperava respostas. Em Guaraú eu ouvi minha mente perguntar o porque de tudo pela primeira vez.

Amigos fazem-nos questionar nossos princípios, sem nos censurar por termos feito as escolhas que fizemos. Discordam de nós, mas respeitam nossas escolhas. Nunca duvidam de nossa capacidade. Sempre questionam nossos limites e sempre aceitam que façamos o mesmo.

Tive muitos relacionamentos parecidos com amizades em minha vida, mas sempre faltava algo. Eu sempre me senti invadido, mas nunca consegui que permitissem minha invasão. Isso foi fazendo com que me fechasse e duvidasse mais do ser humano a cada dia.

Meu relacionamento com os verdadeiros amigos tinham que ser como meu relacionamento com Guaraú: sem segredos, sem limites, sem barreiras. Quando estava lá, entregava-me totalmente a ela e vice versa, de forma transparente, completa, incondicional.

Porém, humanos não são praias (e nem ilhas) e não são tão abertos assim às águas que vêm a eles. Mais parecidos com rios sinuosos, onde cada curva guarda uma surpresa, os mistérios do ser humano não são tão prazerosos de se descobrir quanto os mistérios de uma praia insondável. Diferente das praias, que escondem o seu melhor, não o revelando no primeiro encontro, mas nos encontros mais furtivos e íntimos, nós, humanos, revelamos o nosso melhor e escondemos o nosso pior, que vamos revelando com o tempo. A praia não exige confiança para se abrir para nós. Ela se revela e nos surpreende a cada passo. O ser humano nos conta seus segredos de forma triste e vaga, escondendo seus verdadeiros sentimentos.

Não somos feitos de areia e mar, mas de carne e sangue, e isto faz diferença. Ainda conhecerei outras praias, mas não acredito que tenha uma ligação tão forte com nenhuma delas, assim como não acredito que possa permitir uma ligação tão forte com outras pessoas também.

Originalmente publicado no "Lar Interior"

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Saudade

Eu sinto falta.

Sinto falta do jeito dele de pular no portão verde de metal quando me ouvia chegando e de como me irritava o seu choro lânguido e comprido enquanto eu andava pelo corredor até ve-lo.

Sinto falta dos seus pelos amarelados e ruços, eriçados, ressecados e das suas orelhas caídas e seu jeito de Banzé covarde e sem graça.

Sinto falta das suas costelas aparecendo mesmo com ele comendo feito uma draga, uma praga que só comia carne de primeira (o resto ficava tudo no pratinho, quando não era espalhado pela área da frente de casa!).

Sinto falta de como ele se embrenhava na sala e enfiava a cabeça por baixo da minha mão em busca de um pouco de carinho e atenção.

Sinto falta de pega-lo mijando na parede de casa, sempre no mesmo lugar, a esquininha do quintal, e ralhar com ele, e ele vir na minha direção com aquela cara de pidão, rabo entre as pernas, cabeça baixa, olhos tristes, pedindo desculpas, mas sem prometer que nunca mais faria, pois no dia seguinte estaria lá, no mesmo local, fazendo a mesma coisa.

Sinto falta de soltar a corrente da coleira e ve-lo, em desabalada carreira, atravessando ruas como um torpedo. Mais de uma vez pensei que fosse perde-lo para um carro, ou, pior, um cão maior. Baixinho encrenqueiro que era, não levava desaforo para casa...

Sinto falta do seu jeito carinhoso, do seu olhar atencioso, das suas lambidas calorosas, da sua falta de tato, esbaforido que é.

Sinto falta do meu cachorro pulguento, sujo e xexelento. Sinto falta do meu Totó, e não tem cachorro no mundo que consiga substitui-lo.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Amor e ódio




"Como a gente pode amar e odiar uma mesma pessoa?", pergunta-me uma amiga. Uma pergunta que surge de um lugar que nem imagino, mas busco a resposta em mim e na minha própria vida.

O ódio é uma faceta oculta do amor. Não queremos admitir jamais que o sentimos, pois falar sobre isso é dizer que somos seres humanos inferiores. No lindo mundo da imaginação do Facebook, onde todos são cores do arco-ir
is e a felicidade até que existe, onde todos amam cachorrinhos e postam fotos com suas famílias felizes e escondem os problemas de seus relacionamentos atrás de instantâneos de sorrisos que, na verdade, nada mais são do que hipocrisia, o ódio não tem lugar. Abrimos mão de demonstrar nossa humanidade em troca de ser aceitos por todos à nossa volta.

Mas nós odiamos. E odiamos muito. Especialmente quando somos feridos pelas pessoas.

E as feridas que nos afligem são sempre surpresas. Somos feridos por aqueles que amamos, aqueles de quem esperamos carinho, amor, afeto, atenção, amizade, respeito, aqueles que nos despertam admiração, orgulho, aqueles que nos trazem felicidade. Aqueles de quem não esperamos nada, quando algo ruim vem, não nos surpreendem. Ferem, mas a gente se levanta e segue.

O ódio vem do amor que sentíamos por alguém que nos fere. Sentimos que depositamos nossos sentimentos em algo que não vale a pena. É como colocar dinheiro em um banco e este banco nos passar a perna, deixando-nos com uma baita dívida ao invés dos dividendos.

Muitas vezes a gente espera das pessoas que cercam a gente um pouco mais do que elas podem nos oferecer. Esperamos que elas sejam conosco o mesmo que somos com elas, e este é o erro. Se amar é um sentimento incondicional, como podemos pensar em exigir de volta o mesmo amor que oferecemos?

Não existe amor perfeito. Se pensássemos que o amor é uma pessoa, ela teria que atender a todas as expectativas de todas as pessoas de todas as formas mais diferentes e imagináveis, e não é assim que acontece. Às vezes a gente se decepciona.

E um dos motivos desta decepção é que depositamos nossas expectativas sobre os ombros de pessoas como nós. Pessoas imperfeitas. Pessoas que, sentem o amor à sua maneira, sob seu ponto de vista, levando em consideração seu próprio background. E muitas vezes, quando a gente ama, a gente prefere fingir que nada disso existe, e aí está um grande erro.

As decepções geram o ódio, que pode ser amainado se a gente permitir. Ódio é como fogo, só cresce se tiver oxigênio. Se você o apagar ele não volta a te incomodar. Não estou dizendo que isto é fácil, mas que este é o caminho, e, como diz um velho ditado, o remédio amargo é o que cura.

Amar e odiar a mesma pessoa só acontece porque a gente espera muito dos outros graças às expectativas que o mundo joga sobre nossas próprias costas. A ansiedade é a doença do século XXI. Queremos tudo rápido, e não é assim que as coisas funcionam no mundo real. A vida real é diferente, e os sentimentos não são tão objetivos quanto os status de relacionamento do Facebook.

Odiar? Normal, apesar de não admitido. Prosseguir odiando? Aí só depende de você.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Decepções

E quando você carrega para casa os problemas alheios e fica preocupado com as pessoas de quem você gosta, mesmo quando não sabe se estas pessoas se importam com você o tanto que você se importa com elas?

Eu não escondo o que eu sinto. Nunca. Sou um péssimo mentiroso, e isso é complicado. Sou indelicado às vezes, mas estou disposto a pagar este preço. Olho em volta e vejo hipocrisia. Não consigo fingir que isso me agrada. Vejo deslealdade, e isso me machuca e decepciona muito.

Nunca deixarei de acreditar no ser humano. O que pode ser compreendido como uma burrice absoluta para mim nada mais é que minha porção de fé na transformação. No entanto, minha fé em pessoas específicas... Essa não tem jeito.

Mas diz o ditado que amar a humanidade é fácil, difícil, é amar o próximo, não é? Então não dá para esperar nada diferente de mim. A única diferença é que eu não sou hipócrita de fingir que gosto de alguém só porque aquilo pode me trazer alguma vantagem ou benefício.

Outra coisa que não faço é tentar passar para trás qualquer pessoa que seja.

Ainda menos com pessoas que acreditaram em mim por algum motivo.

Por isso, quando vejo que estou sendo passado para trás por pessoas em quem depositei minha confiança, o que sinto é uma grandecíssima decepção. Mas não pela pessoa, e sim por mim mesmo.

Mas decepções são positivas. Elas nos ensinam sobre o comportamento humano. Muitas vezes não queremos aprender, mas aprendemos, nem que seja na marra. A dor ensina mais que o prazer, e perder ensina mais do que vencer. Tirar das decepções a lição necessária para levantar e seguir em frente. Eis a condição humana. Vamos nos entristecer uns com os outros o tempo todo, e só vamos nos decepcionar com aquelas pessoas de quem esperávamos algo. Depositar a confiança no outro é um salto no escuro, ao mesmo tempo que um passo de fé.

Queria não me decepcionar, mas sou humano e meus julgamentos sobre as pessoas são baseados no fato de que eu sou imperfeito e posso ser enganado por perfis aparentemente bons, pessoas que se passam por amigos, mas que na realidade não o são.

Vou continuar acreditando. Não é isso que vai me fazer perder a fé no ser humano. Ademais, adoro aventuras. Saltos no escuro podem ser fascinantes. Você não sabe o que esperar do outro lado...

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Batuque paulicéia



Prova de Carinho, de Adoniran Barbosa e Hervê Cordovil, é um exemplo de que a história que Vinícius falava sobre São Paulo ser o túmulo do samba não está com nada. Primeiro que declarar a morte do samba é um exagero. Segundo, por que São Paulo produz um samba rico em criatividade, e, especialmente, com identidade local.

Em Adoniran isso pode ser sentido no vocabulário. Suas músicas cheias de maneirismo reproduzem o falar do paulista de sua região. A cidade de São Paulo com suas fábricas, seus trens e metrô, seu ritmo próprio se reflete em suas letras cotidianas, de realidade contundente. Desde a demolição de um cortiço antigo até a morte de uma moça na esquina mais amada da cidade (logo a São João...), é o respirar da metrópole, com sua voz mais aguda e profunda. É possível sentir o cheiro do molho de tomate no Samba do Arnesto, e mesmo o cheiro de fumaça na Saudosa Maloca. Isso para ficar em algumas das mais famosas composições do Bardo paulistano, que canta sua musa, sua cidade, com sua elegia à loucura, qual Juó Bananére e seu italianato brasileiro deliciosamente errado e, muitas vezes, incompreensível.

Fala da cidade, também, o maior batedor de latinha de graxa de todos os tempos (junto com Ciro Monteiro fariam uma dupla de percussionistas bastante inusitada, uma caixa de fósforos e uma lata de graxa), Germano Mathias. Diferente do samba de Adoniran, a música de Germano é, segundo ele mesmo, um "samba bibopado", com uma cadência própria e uma identidade perene. Seus breques e quebras de ritmo fazem de sua arte um achado de originalidade e criatividade que podem ser comparados ao samba criado por Dicró, Moreira da Silva e Bezerra da Silva. Um Kid Moringueira da Praça da Sé, com sua ginga de artista de rua e a elegância do verdadeiro malandro.

O que dizer, então, de Paulo Vanzolini, o oftalmologista que criou versos como "Um homem de moral não fica no chão, nem quer que mulher lhe venha dar a mão. Reconhece a queda, e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima"? A poesia seca de uma cidade que urge. Ao mesmo tempo, a cadência de "Amor de trapo e farrapo", que faz gosto de ouvir. Oftalmologista, viu na íris da cidade sua poesia mais fugidia, aquela que a própria cidade não identificava tão facilmente. Enxergou na cidade o doce que não se vê com facilidade, apenas com a ajuda de aparelhos.


E é do panteão dos deuses do samba que se invoca o nome dos demônios que melhor expressam cada um destes compositores. Com vozes estridentes e um jeito seu de interpretar cada uma das músicas destes compositores, os Demônios da Garoa, sacrílego grupo de sambistas (paulistas! Sacrilégio!) atacava com seus "Quais" (E não "quaix", como viria de um carioca) e sua sonoridade e elegância. Não como malandros, não com a pele negra, não com samba no pé, mas com samba na voz, nos instrumentos, nos ternos bem cortados, nos cabelos engomadinhos e nos sapatos bem lustrosos. Um samba "almofadinha", assumidamente apressado, indelevelmente paulista, rico, profundo e saboroso, qual sanduíche de mortadela do Mercado Municipal ou pastel de feira da Liberdade.

O mais intrigante da frase de Vinícius sobre o samba paulista é saber que seu maior parceiro, Toquinho, veio da terra da garoa. Mas eu tenho, de certa forma, que concordar com Vinícius... Se São Paulo é o túmulo do Samba isso só acontece porque o samba escolheu ser enterrado ali, onde pode ser sempre lembrado.