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domingo, 5 de julho de 2015

As Guerras pela liberdade da mente


Realidades Adaptadas”, de Philip K. Dick nos deixa uma pergunta: Quais os limites para o controle sobre a liberdade?

Lendo Philip K. Dick tenho a impressão de que vivemos, hoje, em seu futuro distópico. Exceto pelas bombas atômicas que não foram lançadas (mas quase, na crise dos mísseis), tudo aquilo que ele previa nos seus escritos nos anos 50 já se concretizou. Robôs sencientes, a despreocupação com a questão ambiental, o medo fazendo as pessoas trocarem a liberdade pela segurança.
Na coletânea “Realidades Adaptadas” (Aleph – 2012), isso pode ser enxergado de forma clara. O livro reúne sete contos escritos nos anos 50 que acabaram sendo adaptados para o cinema. Em três deles em especial, a questão da liberdade é tratada de forma latente e o questionamento que o autor faz é: quais os limites para o controle sobre a liberdade?
Sem abandonar sua escrita leve e rápida, carregada de ironia e ação, ele questiona a intervenção dos governos e das grandes corporações nas vidas dos indivíduos. Em O Relatório Minoritário vemos a polícia prendendo pessoas que, apenas no futuro, iriam cometer crimes. Em O Pagamento, após ter sua memória apagada um homem é perseguido pelo governo para revelar o que fazia em uma megacorporação. Em O Homem Dourado, vemos como ser mais capaz que os outros, pode custar caro.
Até que ponto a liberdade pode ser sacrificada em favor da segurança? Podemos ver esta mesma pergunta, sendo feita após o 11 de Setembro. Governos invadindo casas, agências de inteligência hackeando computadores, câmeras de vigilância espalhadas por todos os lugares. O Big Brother de George Orwell fundamentado em nosso medo. Ao mesmo tempo em que temos medo do mundo que nos cerca, governos têm medo de que o homem, por meio de seu potencial, alcance a liberdade.
Este é um tema presente na literatura de ficção científica. Philip K. Dick é um dos autores que mais se preocuparam com os limites da liberdade. Um dos questionamentos do autor que mais fazem sentido é o fato de que muitos querem, para poder viver com "tranquilidade", entregar sua liberdade em troca de uma constante fiscalização.

***

Uma guerra justifica a invasão das mentes das pessoas no intuito de evitar crimes? Em O Relatório Minoritário, o crime pode ser evitado por meio da precognição. Assassinatos não acontecem, mas os “futuros” assassinos são presos mesmo assim. Pessoas são responsabilizadas por crimes que não cometeram. A justiça tem o direito de prender por pensamentos? O governo teria o direito de cercear a liberdade de pensar?
No conto O Pagamento, um técnico troca uma grande quantidade de dinheiro por um saquinho com bugigangas. O motivo? Ele ainda não sabe, mas quando começa a ser perseguido pelo governo, cada um dos objetos que ele leva no pacote tem um significado. O governo quer saber o que ele fazia dentro de uma mega-companhia. A suspeita de que ele teria contribuído para a construção de máquinas ilegais é o que motiva a polícia secreta em sua perseguição.
A liberdade dele está em jogo. Entre o governo e a companhia, ele precisa encontrar um caminho para poder viver. Sua escolha é estar acima de tudo isso. Sua individualidade, sua capacidade de enxergar à frente o leva a tomar a decisão que vai determinar seu futuro para sempre. O indivíduo encontrando o caminho para a liberdade por meio de sua própria capacidade de superar os obstáculos que a vida lhe apresenta.
Já em O Homem Dourado, o mundo após uma guerra é marcado pela presença de mutantes, pessoas com superpoderes. Um deles chama a atenção por sua capacidade de prever o futuro. Em todos os casos o governo caça, prende e mata os mutantes, ao invés de tentar entender as diferenças que eles representam. As pessoas não querem evoluir, avançar. O objetivo é nivelar o ser humano por baixo, não permitir que aqueles que tem maior capacidade de sobreviver venham a triunfar, manter a mediocridade do ser humano. O próximo passo evolutivo dá medo demais.

Philip K. Dick deixa mais perguntas do que respostas para nós. Suas histórias têm, em sua maioria, finais tristes e surpreendentes. Uma certeza surge, no entanto. A liberdade é um bem muito valioso para trocar por qualquer coisa. Seja por segurança, seja por dinheiro. Este bem, no entanto, está sempre em perigo. Seja em suas histórias, seja no mundo real.

Quem quiser comprar no site da editora, basta clicar aqui

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Colaborações


Desde o início de Novembro este bloggeiro é colaborador do site Fique Ligado falando sobre cinema e literatura (e, logo logo, música também).
Este trabalho divertidíssimo tem tomado bastante tempo da minha vida e isso tem sido muito gratificante. É bom ver você sendo publicado em outros lugares, comentado, elogiado... Senti falta disso por muito tempo.
Agora semanalmente meu nome aparece por lá, em críticas e matérias. Sempre que sair alguma coisa minha no Fique Ligado vou mandar o link para vocês por aqui!

Para este contato eu agradeço sempre à Thalyta, grande jornalista que descobriu meu blog e me convidou para este lindo projeto. Também a minha editora Ingrid, sempre preocupada com os subtítulos que eu esqueço de colocar e controlando meu humor, muitas vezes non sense, nos textos! Meninas, vocês não sabem o quanto são importantes para mim!

O Fique Ligado é um site de entretenimento moderno, eficiente e que sempre tem as melhores notícias. Visite e conheça!





Abaixo, as minhas matérias que saíram por lá.

Cinema

Enterrado Vivo

A Rede Social

Minhas mães e Meu Pai

Muita Calma Nessa Hora

Senna

RED - Aposentados e Perigosos

Animação

Megamente

Literatura

Deus é meu Camarada

Milo Manara em Santos

E logo logo, para a alegria da Thalyta, também teremos música aqui!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Dom Casmurro, ou "A omissão que é mentira

Não. Dom Casmurro não é um livro sobre o ciúme. Não é este o assunto que permeia o livro. Não é sua espinha dorsal. Também não é um livro sobre Capitu. Ela, a personagem feminina mais importante da literatura de língua portuguesa não é o mote principal da obra.

O livro é sobre justificar seus erros depois de se ter remorso por eles.

Sim. é isto que Bentinho tenta com seu livro: convencer a si mesmo de algo em que já não mais acredita. Algo que lhe corrói.

Sim, Dom Casmurro é sobre ele mesmo: o Dom Casmurro.

Atar as duas pontas da vida? Pois sim! bentinho quer tentar justificar pela apresentação de provas circunstanciais (é um advogado! Ele vive da defesa de teses) e pela não apresentação de outras provas.

Dom Casmurro é um livro tão importante pelo que se escreve nele quanto pelo que não se escreve. O que é oculto tem tanta importância quanto o que é revelado. Temos um lado da história, que se construiria de forma diferente diante dos outros pontos de vista.

A amargura de Bentinho se sente por toda a extensão do livro, fazendo da narração uma personagem à parte. Tão importante quanto o narrador são os sentimentos que o inundam por toda a extensão do livro. Bentinho se entrega em meias palavras, no imagina-lo escrevendo, quase vendo as lágrimas que lhe correm das vistas, as raivas que oculta, os momentos em que a pena sobe, preferindo uma palavra à outra, mas voltando à original para tentar iludir a si mesmo com uma proximidade de verdade.

Mas não estamos falando da verdade propriamente dita, e sim da sua verdade íntima e pessoal, a verdade em que Bentinho acredita.

Machado constrói um personagem profundo e complexo com este Casmurro que escreve, contando sua história. As nuances acontecem no texto tão mais fortes do que acontecem no fato narrado, dando peso ao que lhe interessa, tirando do que não lhe apraz (a notícia sobre Capitu, enfurnada entre duas frases pouco importantes, demonstrando falso desinteresse pela vida da antes amada, o não lembrar do discurso para o amigo Escobar, que era um mais lembrar que qualquer coisa), construindo um cenário que mostra Capitu como a grande culpada de traição que ele imaginava. Porém, pergunto-me: seria?

Não vemos o rosto de Ezequiel, possível filho da traição que trazia em si Escobar todo. Contamos apenas com a descrição que Bentinho, tomado pelos ciúmes lhe dá. Vemos os enigmáticos olhos de Capitu pela ótica, ora apaixonada, ora desaforada do Casmurro narrador. Conhecemos dos fatos as partes e nada mais que elas. E, diga-se, as partes que interessam a Bentinho que saibamos.

Eis o que a obra tem de mais rico. Machado faz com que a ótica do narrador seja de tal maneira solapada pelo próprio conteúdo que cai em descrença. Bentinho não se faz acreditar justamente pelo fato de que quer ser crido, inclusive por si mesmo, da mentira que a mente lhe pregou.

Ou será que não?

Trecho
 
"Olhos de Capitu"

"Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios."

domingo, 5 de dezembro de 2010

Tabacaria

O que fazer quando temos uma personalidade tão fragmentada? Fernando Pessoa criou heterônimos, que eram pessoas que habitavam dentro dele e que ele colocava para fora por meio da poesia. Acho que foi o que melhor lidou com sua própria bipolaridade...

Escreveu o poema abaixo (Tabacaria) e assinou como Álvaro de Campos, um homem perdido em si, que não era parte alguma de nada. Não pertencia a nenhum lugar e não se sentia feliz em lugar nenhum.

Poucas vezes estive tão Álvaro de Campos na minha vida. Então, para "comemorar", abaixo o poema que mais se parece com quem sou.

E as pessoas não entenderiam porque eu tomo as decisões que eu tomo, ainda que eu explicasse. Mas dói. Ah, se dói. Sempre dói.

Tabacaria



Não sou nada.
Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma sem
Porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates coma mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê —
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,

E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como
Tabuletas
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos (mas poderia ser João Thiago)