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quarta-feira, 13 de abril de 2011

Quem sou eu para falar de samba?

Quem sou eu para falar de samba? Não sou um bamba, sou um tipo qualquer, um zé mané, ralé, gente sem jeito, sentado no parapeito da vida, esperando para poder voar.
Quem sou eu, afinal, para falar de samba, não é verdade? Não ouvi ou vi ao vivo Noel, Pixinguinha ou Donga. Não estava no Rio, fugindo da polícia, jogando capoeira e amando as negras da Lapa. Não sentei na roda com Martinho, muito menos com Paulinho puxei um samba sequer.
Não sou ninguém para falar de samba. Nunca vi foto de João da Baiana, nem ouvi Elizeth cantar e encantar na madrugada. Quem sou eu para dizer o som do carnaval? Logo eu, que, ao ouvir uma marchinha, passo mal que só a gota.
Nasci um ano antes de morrer Vinícius. Quem sou eu para dizer que sei o que quer dizer sua música? Não sou ninguém. Não conheço Monarco, Billy Blanco, Zé Keti, sim, era o Samba, a voz do morro, ele mesmo, sim senhor.
Nunca sentei com dona Zica. Nunca chorei com Chiquinha Barbosa. Nunca vi Clara encandear. As cabrochas? Só as vi danças a distância. Eu mesmo não sei molejar meu corpo, não sei me fazer movimento, prá frente, prá cima, prá dentro, não sei dançar.
Toquei violão quando criança, mas adulto, não sei tirar uma nota. Não tenho foto com João Bosco, meu xará, nem com Paulo Vanzollini, autor magistral da terra da garoa. Nunca xinguei Adoniran de alguma palavra suja italiana, nem ouvi os demônios infernizando a vida do povo da cidade grande.
não sei tocar caixinha de fósforo, seu Ciro Monteiro. Nem lata de graxa, seu Germano Mathias. Não sei tocar cavaquinho, seu zeca, e muito menos bandolim, seu Jacob. Pandeiro, então, deixo para o Jackson.

Posso não saber nada disso, nem ser um deles, mas, sei lá, dentro do coração, quando bate o bumbo e eu fecho os olhos, minha alma dança, negra e feliz. e, como Vinícius, me torno o branco mais preto deste meu país, e me regozijo no samba crioulo que ainda corre nas veias de um simples sonhador. Um ninguém, que puxa a cartola para a passagem dos mestres do samba.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Sua majestade, o samba

É fato: Chico Limeira não sabe sambar. e por melhor que seja sua música, um sambista que não sabe sambar não é sambista, ainda mais se tocar baixo e se forçar uma falsa malandragem na voz. aí a coisa é pior.

mas isso, o atraso de sua banda em passar o som (sim, além de falso sambista, Chico Limeira é atrasado), as letras pobres e desconectadas à realidade do Rio de Janeiro (não é de se surpreender. um mauricinho paraibano não vai entender mesmo o que se passa na mente e no coração de um sambista carioca e, quando tenta, cai no clichê mulher-samba-cachaça) não atrapalharam sua majestade. quando Paulinho da Viola subiu no palco já eram nove e três e o Som das Seis (????) finalmente começou.

De sorriso fácil e notável prazer em tocar, Paulinho da Viola conduziu seus súditos como o príncipe regente, regendo a orquestra de cinco mil vozes que tomou o Ponto de Cem Réis nesta sexta-feira em João Pessoa.

uma hora e vinte, vinte e duas canções, um cavaquinho e um violão cuidadosamente desafinados pela tecnica, incomodando sua majestade e um povo emocionado, emocionando o príncipe, cantando junto, acompanhando o jeito tímido do Gênio. tudo sob a lua cheia que despontava no céu claro que parecia reverenciar sua alteza.

Abriu o show sozinho, sentou no banquinho, puxou do violão, sentiu o desafino mas não se intimidou. Passaria o show inteiro incomodado com o som que não o agradara. "Coração Vulgar" e "Coisas do mundo, minha nega" mostravam que o repertório viria recheado de sucessos, quase todos seus.



"Coração Leviano", "Onde a dor não tem razão", "Sinal Fechado", "Argumento", "Pecado Capital". Sucessos que o povo cantou junto, alto, sorrindo, como Paulinho. Em "Dança da Solidão" quase não se ouviu o mestre. "Foi um rio que passou em minha vida" teve repeteco imediato para saciar os súditos de sua alteza. O príncipe desceu para brincar e purgar a tragédia por que a Portela passou algumas semanas atrás.



Mais dois sambas homenagearam a azul e branco. "O ideal é competir" de Candeia e Casquinha, mais apropriada do que nunca para o momento da escola. O samba que diz ""O que se passou passou, seu destino é lutar e vencer" e a belíssima "Lenço", de Chico Santana e Monarco, pouco conhecida do público, mas acompanhada com atenção e carinho.



Cantei junto cada uma das canções do mestre. "Procedimento", "Sinceramente", "Vela no Breu", até as novas "Para um amor no Recife", cantada em João Pessoa, e "Talismã", linda, falando de fé.

Mas é em "Ainda Mais" que eu tive meu momento com o Príncipe. ninguém ali conhecia este samba lindo, parece que só eu. O silêncio tomou o Ponto de Cem Réis. Só eu cantava com Paulinho este samba. Ele notou.



Notou e cantou me olhando, dividindo aquela canção comigo, fazendo aquele sorriso que só Paulinho sabe fazer. Dando para mim a alegria de um momento íntimo com sua alteza. Como súdito tocado pela realeza, senti-me agraciado. No final, olhando para mim e acenando com a cabeça e a palheta, apontando para mim, em sinal de aprovação.

Dali para frente, o mar me navegava. Cantei o rio que passou por minha vida e me assumi portelense desde criança. Sua majestade, o samba, me tocou, e nada mais poderia me deixar mais feliz. O samba, o grande poder transformador, me transformou. Nunca mais serei o mesmo.