quinta-feira, 1 de março de 2012

Someone like you? A lot, darling...

Adele e os seis filhotes, alimentados a muita dor de cotovelo
Meus parabéns à gordinha britânica Adele que faturou o Grammy deste ano e seis categorias. O prêmio é dado aos melhores artistas do ano, e quanto a isso não existe questionamento: Ela foi definitivamente a melhor do ano.

No entanto, a Adelefever que tem tomado os corações e mentes da juventude transviada que estava em busca de uma diva não me pega.

As letras que falam de amores perdidos e da tentativa de levantar-se e dar a volta por cima são um velho caminho trilhado por tantos artistas antes dela... Um velho caminho, sim, mas bem trilhado e agradável. Todos os grandes compositores já falaram da boa e velha dor de cotovelo. Ela nos faz crescer enquanto artistas e seres humanos. A dor, em geral, tem esta característica edificante.

Mas acredite, someone like her, tem diversas. Só de cabeça eu já penso em pelo menos três cantoras/compositoras/musicistas que estão no mesmo nível e até melhores que a jovem inglesa.

Posso começar com Norah Jones, que eu seu último trabalho, "Chasing Pirates", consegue transmitir uma emoção profunda e uma unidade criativa bastante edificante. Ando por fora do que Alicia Keys anda fazendo, mas ela é outro nome que posso dizer que sempre chamou a atenção, até porquê junta à aura standard um quê de R&B que é gostoso de ouvir e dançar. Sem contar Diane Birch, cujo timbre rouco e agudo e cujas letras poéticas e líricas fazem de "Bible Belt" um dos melhores discos da segunda década do século XXI.

Isso só para ficar nas cantoras/compositoras/musicistas que tocam piano e cantam com a rouquidão de uma alma quebrantada...

O problema não é a qualidade de Adele. Ela é ótima cantora, música com verve e paixão e compositora de dor de corno como poucas. O problema é que ela só consegue se destacar porque a música hoje está passando por um péssimo momento, quando falta qualidade, diversidade e identidade aos artistas.

Todos querem ser iguais a alguém que veio antes. Quantas Amys não estão surgindo aos quatro cantos? Quantos cantores de black music querem ser o novo Akon, ou coisa parecida? Se bem que Akon já deve ser o novo alguma outra coisa, que não sei...

A mesmice parou na música e ali ficou. Adele veio dar uma chacoalhadinha (de leve) nesta mesmice. No entanto, o risco de entornar o caldo é grande, já que uma das coisas que vai acontecer agora é o surgimento de várias Adelezinhas. E não é culpa dela, é um fato que as gravadoras vão querer fazer surgir novas cantoras com o mesmo perfil.

Será que as gravadoras terão coragem de lançar algo novo no mercado? Algo diferente? Difícil... Com as mudanças do mercado da música é mais fácil investir no igual, que você sabe que vai conseguir vender.

Mas ainda tem muita coisa boa surgindo no mundo alternativo. Basta uma vasculhada na Internet para você encontrar boas bandas. Até de muita coisa de dor de cotovelo, o assunto mais comum da música moderna. Vale a pena olhar em volta e sair da mesmice. Você vai encontrar alguém como ela, acredite. E até melhor, viu?

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012



Pichemos em nossos corações.

A verdade pichada nas ruas de São Paulo, um grito preso na garganta, solto com toda a agressividade. O que é importante para o homem, o que é importante para viver?

Tudo o que precisamos é do amor, pichado em nossos corações, enchendo-nos da coragem para ir além do comum. O amor é importante, porra, protesta a cidade contra nós, esquecidos da mensagem, esquecidos do verdadeiro significado daquelas palavras.

O amor, tão esquecido durante tanto tempo, relegado a um lugar sem destaque em nossas prioridades, ainda nos grita por atenção. O amor é importante, porra! A cidade grita, e nossos corações ecoam seu suplício.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fôlego

Amar requer fôlego, e isso as pessoas não têm.

Não têm fôlego para suportar atravessar grandes adversidades em nome de um amor que considera o outro não a extensão de si mesmo, mas o outro, sim, o outro em si mesmo, uma pessoa diferente, independente.

A falta de ar se deve à superficialidade com que as pessoas tocam suas relações. Como se a vida fosse um rio e todos ficassem satisfeitos em boiar na superfície.

A vida está dentro do rio, mas é desconfortável e incômodo tentar encontrar o fundo. exige fôlego, exige olhar prá dentro, abrir os olhos quando a água é escura e descobrir que não dá pra saber o que está a nossa volta.

Amar exige fôlego para suportar a profundidade do rio do outro. Por mais que nossas cabeças estejam boiando, uma grande parte de nós ainda está dentro da água, oculta, esperando para ser descoberta. Esta parte de nós só pode ser explorada no mergulhar, e não na vista de cima. De cima da água tudo parece bonito, organizado e ordeiro.

É lá em baixo que o amor se prova. É na falta de ar, na sujeira do rio, na água barrenta e na dificuldade de voltar. É na possibilidade da morte que se prova a vida do amor.

Mas não podemos descobrir isso na superfície, onde o céu é azul e a água calma.

O problema é que quando a pedra bater nas costas, os despreparados vão ficar sem fôlego. Estes, que reclamam que amar é difícil, que viver é foda, que é mais fácil ficar sozinho, que o amor sempre machuca...

Sim, sempre machuca, mas é isso que acontece quando você desce um rio: as pedras, os gravetos presos, a escuridão da água, tudo o que está no fundo pode machucar, e a gente não sabe quando este ferimento virá.

Amar não é fácil. Se você acha que vai se ferir sempre, está certo. O que você precisa é explorar o fundo do rio da sua vida para saber o que tem lá que pode te machucar, e se proteger contra aquilo. Mesmo assim, a vida é um rio, e como todo rio, pode trazer novas pedras e novos gravetos do alto da colina.

Então, ao invés de gastar seu fôlego com futilidades e superficialidades falando do amor, vá viver o amor como ele deve ser, ferindo, duro, difícil. Mergulhe e fique sem fôlego. Deixe-se ferir e fira, e pare de reclamar das nuvens neste seu céu azul sem graça!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Começo ruim


Terminei de ler "O sol também se levanta", representação de Hemmingway sobre a "Geração Perdida", de homens e mulheres que viviam o pós 1a guerra. O autor podia ter sido mais feliz. Apesar da sutileza do texto e da riqueza dos personagens, todos bastante complexos, o livro não chega a um ápice. Ao contrário, ele é feito de anticlímax após anticlímax.

Hemmingway consegue passar a emoção (ou a falta dela) presente na geração que se seguiu à 1a guerra. Personagens cuja existência não tem qualquer significado perambulam semivivos por uma Paris que é festa sobre festa e depois por uma Pambplona que é a própria fiesta o tempo todo.

De festa em festa vemos a existência miserável dos meio ricos da Europa dos anos 20, suas bebedeiras homéricas e a falta de significado de suas existências. Se eles não tinham qualquer significado, porquê, afinal, contar suas histórias?

Foi um péssimo início de relacionamento, Hemmingway... espero que os próximos sejam melhores...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A eternidade do amor

Esta história do "Ou se ama para sempre ou nunca se amou" é besteira. Amor acaba, como qualquer outro sentimento. Crescemos, mudamos, evoluímos. Pensar que o amor é eterno por ser transforma em estático aquilo que o ser humano tem de mais dinâmico que é sua capacidade de se relacionar com o outro.

Amamos mais de uma vez na vida. E amamos de verdade. Aquele amor prá doer, prá deixar feliz. Podemos amar, também, uma vez só na vida, claro, e estes casos são muito comuns, e lindos exemplos de resiliência de um sentimento. Amor pode ser sequóia que alcança 1000 anos e pode ser laranjeira, que dura dez. Ou pode durar ainda menos, nunca se sabe.

Dizer que só se ama uma vez na vida é desvalorizar todos os outros relacionamentos que se viveu. Amamos errado, é da nossa natureza. Não sabemos fazer isso direito. Deus deixou umas instruções, e tal, mas cada um de nós é de um jeito, então, seguir todos a mesma cartilha é certeza de que perderemos nossas personalidades em detrimento de um modelo estático. Deus não quer isso. Quer que amemos errado, sim, para aprendermos o nosso jeito certo de amar.

Quem quiser amar certo vai se machucar ao longo da vida. Se fechar para o resto da humanidade dizendo que não poderá amar mais é perder tempo e maravilhosas experiências de vida, de derrotas, vitórias e amor. Muito amor.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Arkáditch e a inevitabilidade da vida

Passamos a vida esperando pelo inevitável. A sombra da morte nos ronda em todo o tempo, em tudo o que fazemos, em cada passo que damos. Tudo o que podemos fazer é caminhar em direção ao nosso fardo, esperando que, um dia, quando transpusermos a barreira do inefável, algo nos esteja esperando do outro lado.

O inevitável é o tema principal de Arkaditch, último livro de Waldemar J. Solha, paulista de Sorocaba radicado em João Pessoa. O livro conta a história de um dia na vida de uma família da classe média-alta da capital paraibana e de como o inevitável vai atingir, bem no meio do peito, cada um dos personagens, seja com a morte, seja com o amor. O inevitável vem, decerto.

O passado traz seu peso na história de Arkáditch. O personagem principal é um professor universitário e mega empresário na capital paraibana. abriga seu pai em casa e está recebendo sua filha mais velha de volta ao lar depois de uma longa estada em Madri.

Em paralelo a estes dois fatos a história da família vai se desmoronando naquele dia, com segredos vindo a tona, mortes e a gravação de um filme que tem como roteirista o personagem principal.

Ao longo de toda a história existe a presença de uma mulher misteriosa, que é quem manipula os acontecimentos daquele dia. Se conduz como juíza daquela família e vem cobrar uma dívida de honra antiga para com o protagonista.

Usando referências que vão de Ana Karenina (Arkáditch é o nome do irmão da personagem) às tragédias gregas, unindo o moderno e o clássico, Solha conduz uma história que fala sobre amargura com a maturidade de quem vive em paz com seus fantasmas, diferente de seu protagonista, que tem um armário cheio de esqueletos nos quais não quer mexer. Porém, como tudo no livro, mexer nestes esqueletos é inevitável.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O simples Adeildo Vieira


Amor de Farol
O amor que você deu
É seu, é seu, é seu
E a quem você o deu
Não importa se o usou
Não importa se o pisou
Não importa se o perdeu
Isso não é problema seu!
Imagina se o farol
Além de viver tão só
Fosse culpar sua luz
Pelo barco que passou sem perceber
Esse bem que lhe conduz
Alegria de farol
É tomar lições do sol
É viver de se entregar
Quanto mais sua luz se perde pelo mar
Mais luz ele tem pra dar

Faz um tempo que Adeildo Vieira tem se apresentado na minha setlist, e parece, ao que tudo indica, que este tempo vai se estender bastante. Dos compositores paraibanos contemporâneos que surgiram para mim desde que aportei por estas terras quentes é com ele que mais me identifico. Os outros são tão bons quanto (Chico César, Zé Ramalho, Livardo Alves, Sivuca), mas é com Adeildo Vieira que eu me sinto mais à vontade, pois fala do mesmo que eu, e de uma forma que eu falaria.
Adeildo, em sua obra, fala de amor, com profunda simplicidade, sem precisar buscar as paradoxalidades obtusas de Chico César, ou a transcendência mirabolante de Zé Ramalho. Sua musicalidade não chega aos pés de um Sivuca, verdade, mas, também, como chegaria, se ele é o maior, não é?
De fato, a música de Adeildo é tão interessante justamente por sua simplicidade de poesia musicada. Seu som desajeitado, de versos sem métrica e rimas falhas e sua cadência quebrada que dá um trabalho da peste acompanhar, mas é bonito que só.
Adeildo em sua simplicidade de criança falando de amor, cria versos de um poder tocante. "Amar demais até parece mal, mas nenhum outro mal me faz tão bem". "Ou se deixar contaminar por um sorriso de alegria de alguém que ainda enxerga a luz do dia" "Se o meu amor descer de rio abaixo, suas palavras boiarão no meu silêncio". Tudo simples, sem grandes elucubrações.
Partindo desta simplicidade Adeildo toca no coração, falando sempre do amor que sente dentro de si. Gosto de sua poesia pois é carregada deste sentimento da criança que vive uma fantasia, sabendo-a fantasia e acordando para a realidade quando a realidade lhe exige.
Profundo e simples, Adeildo Vieira consegue tocar dentro de nossos corações.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Amorério




Minha alma vestida em verdadeiro trauma
Cada ponto que eu traço é um beijo jogado em vão
Cada vôo mais alto, mais duro é provar o chão
Meu amor de viver é tão grande
É um desafio a toda a minha calma
Meu amor é grande, bem maior que eu
Amar, eu preciso amar tudo
Amar o que eu penso e o que não penso
E quem sabe até deixa sobrar amor pra mim também
Tanto amor disparado a todo instante
Quem bem sabe o bem de minh'arma se expões e ainda mostra o peito
E quem usa o arsenal de minh'alma por mim tem o maior respeito
Tanto amor amado à toa é minha Hiroshima sem saber aonde explodir
Explode em meu peito e os cacos de mim, se atirados ao Ponto Cem Réis
Que sejam restos de feira ou dados de Ibope no chão
Mas serão amor-primeira-página
Meu amor, se exposto em out-door gigante
Fatalmente será confundido com slogan de refrigerante
Se falado no rádio parece poema de poeta louco
Meu amor, se visto em filme, só será aplaudido na
morte do bandido
Se for bem sangrenta e arrancar do cinema
Aplausos e risos de quem consegue
Ter ódio nas veias e sangue na boca
E ninguém vai ver meu filme de amor
Amar demais até parece mal
Mas nenhum outro mal me faz tão bem!!!

Em algum lugar do mundo, neste exato momento, alguém está amando e sendo amado. Talvez não seja você. Ou talvez seja, não sei.
Mas você já amou e foi amada, ou amado. Ou acha que foi isso que te aconteceu com aquela pessoa que você considera especial até hoje. Você acha que aquilo que foi crescendo dentro do seu coração era amor, mas quando se decepcionou, achou que não, que não era amor, que pessoas que nos amam nunca vão nos decepcionar.
Engana-se.
As pessoas que nos amam são as que mais nos decepcionam. São as que mais machucamos e com quem mais dividimos desesperanças e desilusões.
O cinema te fez acreditar que amor "para sempre" é só aquele amor intransponível, de peito cheio e aberto para o mundo à sua frente. Amor que encara tudo sem se encolher, entra por todos os caminhos sem se desencontrar. Enfrenta todas as lutas sem perder.
O amor é um sentimento que vem de Deus, mas é executado por humanos e, por isso, é um sentimento tão falho quanto nós.
Amor sente frio, fome e medo.
Amor é incerto, seco e vazio.
Amor se deprime.
Mas ama. E continua amando, mesmo com tudo isso acontecendo à sua volta. Um amor de verdade ama demais, sem se perguntar se parece mal, pois sabe o quanto faz bem. Faz tão bem.
Só ama de verdade quem ama o imperfeito e quem se deixa explodir como uma Hiroshima pessoal, espalhando seu amor por onde for.
Amar é um desafio a toda calma, pois não existe amor em paz. Amor só o é em guerra, quando enfrenta a luta e ergue a cabeça dizendo "eu posso sair machucado, mas eu vou sair disso".
Não é amor quando você se rende, vira as costas e segue a vida, longe daquela pessoa, mesmo que você pense nela mais do que em todo o resto. Não. Não é amor se você não lutou.
O amor tem ódio nas veias e sangue na boca. O amor é a humanidade que Deus colocou em nós, e ele quer viver. Ele precisa viver. Não de forma narcísica, não. O amor não quer viver para ser admirado. Ele quer viver para que nossa humanidade, nossa parte mais divina, possa aflorar em nós.
E quem sabe aí sobre até um pouco de amor prá mim também.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Faço o que gosto e gosto do que faço

Não são todos que conseguem fazer o que gostam. Viver da arte que produzem, ou de um esporte, ou um trabalho regular, comum, mas que traz satisfação pessoal.

Na verdade, grande parte da humanidade acaba fazendo o que não gosta. Trabalhando pelo dinheiro, e não pela satisfação pessoal.

No entanto, existe ainda um terceiro grupo de pessoas que é formado por aqueles que aprendem a gostar do que fazem.

Estes, geralmente, começam em uma tarefa por necessidade e obrigação. Aprendem e crescem dentro de sua área e começam a encontrar satisfação para si naquilo que fazem.

Eles são criativos, inventivos e altamente adaptativos.  Conseguem se enxergar em qualquer situação e ver além do problema. Estas pessoas se realizam com aquilo que fazem, pois entendem que viver e aprender é que são as grandes realizações. Mais do que fazer o que gosta, descobrir que gosta de algo que está fazendo é importante para eles.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Amor à música





Você aprende a ouvir música quando consegue ouvir algo que foge do seu estilo normal e você acha bom. Aprende a crescer com a música quando vai procurar referências que são muito anteriores aos seus artistas preferidos. Quando encontra algo de qualidade dentro de um nicho onde nunca pensou que encontraria.

Meu caso é claro... Eu morei no interior de São Paulo e sempre achei música sertaneja o ó. Ruim com força. Meu estilo sempre foi outro. Eu, ainda criança, ouvia Toquinho e Vinícius, Tom, Chico Buarque (chegamos a pensar em montar um mini musical da Ópera do Malandro, isso quando eu tinha 10 anos de idade!!!), Gal, Bethânia e outras cositas...

Cresci e na adolescência, Chico era onipresente. Comecei a ouvir alguma coisa diferente um pouco depois. O Rock só entrou na minha vida aos 19, 20 anos. Antes disso, não, não havia espaço em meus ouvidos para esta barulheira elétrica.

Ouvindo rock eu descobri uma série de coisas boas, mas nunca deixei as antigas de lado. Encontrei Led Zeppelin, The Doors e Creedence Clearwater Revival e, mais recentemente, Beatles e Elvis.

De Jazz eu não falo, pois Jazz não é música, é religião, é ser tocado por Deus de um jeito muito próprio e singular. O mesmo vale para música clássica e contemporânea, que ouço desde criança, com o afinco e a disposição de um verdadeiro acólito.

Agora, o sertanejo... este eu tinha problemas para assimilar. O samba foi fácil. Paulinho da Viola, João Nogueira, Ataulfo, Noel, Billy Blanco, Cartola, etc, etc, etc... Mas o sertanejo...

Aí meu pai, que tocava violão lindamente, e resolveu parar porquê o violão quebrou, pegou emprestado um livro de serestas de um velho amigo, que invadia as noites tocando as mais belas músicas que já se ouviu. Este amigo já havia morrido quando este livro chegou às nossas mãos, mas meu pai, uma noite, na varanda da chácara em Itariri, pegou o violão, abriu o livro de capa verde e eu lembro, como se fosse hoje, que a primeira música que ele tocou foi Chico Mineiro.

Não é difícil que uma música me toque, mas a tristeza da história de Chico Mineiro e seu assassinato bárbaro em uma Festa do Divino no interior de Goiás foi no fundo do meu coração, lá onde existe a réstia da desolação e do vazio, lá onde habita, perdida, uma saudade que, por motivos que me fogem, eu não sinto.

Chico Mineiro é um clássico da música sertaneja verdadeira. De raiz. E desta eu procurei mais. Meu pai cantou outras naquela noite. Ipê Florido, Cabocla Tereza, Fio de Cabelo, tristeza do Jeca e tudo isso veio crescendo, crescendo e eu fui me alimentar desta nova fonte. Não procurei os novos (não gosto do sertanejo universitário, pouco se aproveita da onda sertaneja do início dos anos 90), mas na raiz, lá no fundo, na verdadeira música caipira.

Mas eu só descobri a verdadeira música sertaneja e toda sua criatividade e maravilha quando me vi aberto a ouvi-la. Se você não fizer o mesmo, não descobrirá a beleza da música à sua volta. E isso serve para tudo, ok?

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A Arte da Brutalidade

Quando passamos por uma cirurgia em que recebemos anestesia, o acordar após o sono é doloroso e chocante. Muitas vezes como se a dor tivesse nascido naquele momento em todo seu esplendor maldito, deixando-nos rendidos a ela, entregues a sua vontade soberana, chocados, absortos por sua força e forma.

Com a violência, hoje, não é assim. Não nos chocamos, pois não há mais dor. Ou, ainda, há dor, mas estamos anestesiados, como que ainda sob o efeito do entorpecente que nos deram. Um entorpecente que nos fecha os olhos para a dor verdadeira que corre por nossa espinha.

É contra esta anestesia que o multi-artista paraibano Solha escreve em sua "História Universal da Angústia", livro que ainda não li, mas cujo capítulo "A Gigantesca Morgue" tive a oportunidade de ouvir graças a Eli-Eri Moura e à Orquestra de Câmara de João Pessoa, da Funjope, em sua dissonante "Cantata Bruta".
Sobre a obra de Solha não tenho muito o que dizer, já que, infelizmente, não conheço com a profundidade com que gostaria, mas sobre a Cantata Bruta, sobre esta tenho muito o que falar. Sobre o assunto de que trata, então, um de meus assuntos preferidos, esta anestesia que temos diante da violência que chegou à sua banalização.

A obra do maestro Eli-Eri Moura e de alguns outros compositores paraibanos é contra Samukas Duartes e contra Jás. É contra cada vizinho indiferente, cada corpo estendido no chão e coberto com um jornal, é contra cada abandono e contra cada ato de violência.

A obra fala de casos específicos de violência que falam conosco. Em nosso íntimo, sabemos que é graças à nossa indiferença que esta violência se dissemina. É graças a nossos braços cruzados que homens como os que mataram Ahmed e Fernanda continuam estendendo suas mãos para o grotesco.

Grotesco, aliás, é o que o maestro usa para alcançar todo o potencial desta obra. Grotesca, impressionista, contemporânea. Estas são as palavras que melhor definem a obra, que mescla a orquestra com um coral, sons eletrônicos, atores e iluminação.

Mas ainda é na música que está o mais forte. A violência plástica que ela desenvolve chega aos píncaros da crueldade de um filme como "A Centopéia Humana", ou "Martyrs", por exemplo. Não se trata do que se vê, mas de como se ouve, e Eli-Eri sabe captar a sonoridade dos instrumentos e das palavras para fazer com que elas ganhem a conotação angustiante que merecem..

A angústia que Solha deve ter escrito em sua História Universal. A angústia que cada um de nós, humanos, sente diante da violência e de como esta violência chegou até nós. A violência que cada um de nós, como a senhora que tira do ouvido o aparelho de surdez, prefere não ouvir. A violência que a anestesia do mundo nos faz fingir que não conhecemos.



Serviço: Cantata Bruta - Sábado, 29/10 e Domingo, 30/10, 20h, Cine-teatro Bangüê, Espaço Cultural, Tambauzinho, João Pessoa. Entrada Gratuita.


terça-feira, 11 de outubro de 2011

Amor realista

As pessoas pensam que podem evitar o amor, fingir que ele não existe, passar ao largo e, ainda assim, ter uma vida cheia de significado e alegria. Doce ilusão.

Sem amor qualquer outra coisa que se faça fica sem sentido. O amor não te influencia apenas na área de relacionamento. O amor invade cada pedaço da sua vida e se impregna em cada cantinho do seu ser.

Cada decisão que você toma é definida, também, pelo amor que transborda (ou não) de você. Ficar indiferente a isso é perder uma das partes mais importantes de seu poder de decisão.

Ouço gente que diz "Se eu não amar, não me machuco". Com certeza. Sem amar, não nos machucamos. Mas também não nos maravilhamos, não nos surpreendemos, não nos extasiamos.


Uma vida sem amor é como que anestesiada. Passa-se pela vida sem permitir que ela passe por dentro de você.


Podemos viver sem amar, sim. E sem nos machucarmos, também, afinal. Mas apenas os que não entendem que o ser humano é imperfeito, apenas os idealistas, que pensam que existe a "pessoa perfeita" é que acabam se machucando de verdade.


Quando você acha que existe a "pessoa perfeita" você espera que ela nunca venha a te ferir. Se é alguém sem defeitos, então me amará de um amor sem falhas, que gerará toda a alegria possível.


Triste infortúnio... No final, apenas os realistas conseguem amar.


Apenas aqueles que sabem que podem se ferir, que amam o imperfeito, o incompleto. Apenas aqueles que concebem o inconcebível de amar o que o ferirá, sabendo que isso pode acontecer, conseguem amar de verdade.


E quando se ferem, quando caem, apenas levantam, batem a poeira das roupas e seguem sem a ilusão do amor perfeito e eterno que aqueles que não amam pensam que existe.


Afinal, só se fere com o imperfeito aquele que espera pelo perfeito. Não há decepção quando você se propõe a amar o que sabe que vai te ferir. Então, se prepare para viver uma vida de verdade, com amor de verdade, e não o "amor perfeito". Deixe este para os que não querem amar.

domingo, 4 de setembro de 2011

A Revolução dos Mortos

Eu tenho um outro blog onde conto uma história. É meu primeiro romance, narrado em primeira pessoa. É um conto de terror, mas, ao mesmo tempo, é uma história sobre a vida, seus conflitos, as maneiras que tentamos arranjar de vence-los e passar por eles.

Estou falando da Revolução dos Mortos.

Na sexta-feira eu cheguei ao final do Livro 3. Ou seja, chegamos à metade da história, ao ponto onde precisamos saber se seguimos ou não. O livro 4 começa a ser postado amanhã, não vou dar uma semana de descanso entre os livros desta vez, quero terminar a publicação o mais rápido que eu puder para começar a tratar de outra história que já tenho na cabeça, esta segunda, sobre ficção científica e vingança, inspirada em uma ideia que tive ao ler um post da @Sybylla_ em seu Blog, o Momentum Saga. Uma história sobre viagens no tempo.

Mas atenhamo-nos à nossa história de zumbis por hora.

Tenho momentos de desânimo às vezes. Vontade de parar tudo, desistir da história que estou contando, partir para outra. Penso, muitas vezes, que a história não faz diferença para as pessoas que a lêem. Às vezes me pergunto se realmente ainda tem alguém que lê a história.

Não é fácil para um escritor parir um romance. Exige tempo, dedicação, abrir mão de outros projetos. Exige disciplina, empenho, criatividade e suor, muito suor. Não é algo que simplesmente aconteça.

E tudo isso com paixão e afinco, sentimentos que estão muito presentes na obra.

Os personagens, em geral, foram inspirados em pessoas que cruzaram meu caminho. Lenora é uma mistura de todas as ex-namoradas que eu tive, sendo um pouco de cada uma. Muito do que Ernesto se lembra realmente aconteceu comigo e com amigos meus, fatos da vida que acabam sendo interessantes demais para não serem transcritos na literatura.

Ernesto é a união de uma série de pensamentos e filosofias de vida que, ao longo de minha existência fui aglutinando. Nem todas elas são ainda válidas para mim, que fique claro. Muito do que Ernesto pensa não é o que penso, mas para manter a coerência do personagem eu preferi que ele tivesse uma linha bastante clara de pensamento. Ernesto é um pastor desiludido? Não. No fundo dele ainda há fé, ainda há esperança. Porém, é um homem prático, que não fica esperando as coisas acontecerem. Ernesto faz, intervém, pois tem dentro de si um inconformismo latente. Ele não aceita a situação do jeito que está. Ernesto é a revolução, por isso seu nome. O mundo, os desmortos, o estão transformando, fazendo com que seu lado primitivo comece a aflorar. Podemos ver isso na frieza com que mata Lúcio e a forma distante como trata Lenora, que ele teve de matar junto do filho.

Lucio, aliás, é um rapaz que eu conhecia na igreja que frequentava em Santos, SP. Seu nome era outro, mas ele venceu batalhas homéricas para se tornar o grande homem que é hoje. Pena que, para servir à trama, tive que mata-lo, mas "Lúcio" é um grande amigo que ainda hoje considero uma das pessoas mais brilhantes que eu conheci na vida.

Janaína é uma amiga enfermeira que é exatamente aquilo mesmo. Dedicada até o final aos seus pacientes. A conheço há pouco mais de um ano e é o bastante para ver sua paixão por salvar vidas. É alguém que eu admiro demais e isso não é segredo para ela. Ah, sim, parte dela está em Lenora também, e acho que isso explica muita coisa.

Claudemir não tem um rosto definido, mas é, em grande parte, meu primo Rafael, que também faz uma ponta no início do Livro II como sobrevivente em São Vicente. Eu pensei em contar a história dele, até tentei, mas foi mais difícil. Claudemir é aquele cara que é pau prá toda obra. A qualquer momento que você estiver mal, ele está lá do lado para ajudar. Fiel e persistente, um amigo de verdade. Tem elementos de outras pessoas que conheci também, mas não muitos, apenas a história de vida.

Renata é um amálgama. Visual de uma mulher que eu vi duas vezes na minha vida, uma investigadora da Delegacia de Homicídios. Baixinha, cabelos compridos, sardas no rosto, pele branquinha, sorriso contrastante com a função. Ana Cláudia, se não me engano. Em meus tempos de repórter policial no Jornal da Paraíba eu gamei na moça. Ficava louco para precisar ir à central de polícia só para ter um pouco mais daquele sorriso. Parte dela é de uma amiga que sempre me joga para cima, alguém que me motiva muito. Muita coisa ainda vai acontecer com renata e ela ainda vai absorver elementos de outras pessoas durante a história. Ela é o óbvio interesse romântico de Ernesto, mas ainda tem bastante coisa para acontecer na história.

Basicamente estes são os personagens mais importantes da história por hora. O cenário é João Pessoa porque foi fácil escolher a cidade onde moro e pela qual estou apaixonado. Então, tudo o que quero é que divirtam-se nesta metade final da Revolução dos Mortos. Vamos juntos até que o último sobrevivente esteja de pé.

Agora, vamos pensar na máquina do tempo que eu tenho que criar. Ela tem que ter alguma base científica, afinal de contas...

sábado, 3 de setembro de 2011

Eu sou Bradley Manning


Eu sou Bradley Manning porque a liberdade não tem preço e a verdade deve ser revelada a qualquer custo. As verdades escondidas por trás da Guerra do Iraque precisam ser reveladas. O Bradley Manning que eu estou dizendo que sou é, na verdade, um soldado americano que vazou imagens de uma operação do exército americano no Iraque. As imagens são chocantes, e a história é bastante longa (para conhece-la por completo, indico a blogagem do sempre excelente Geneton Moraes Neto no seu Dossiê Geral, onde fala do problema como um todo).

Bradley Manning vazou as imagens para o WikiLeaks, hoje está preso e aguardando julgamento. Chamou a atenção de bastante gente, sendo motivo de protestos até em Madri e vem recebendo apoio de vários cantos do mundo, como Holanda, França, América Central, e, mais recentemente, do Brasil.

Protestos em Madri - Foto do site 
A prisão de Bradley Manning é algo irrevogável do ponto de vista legal. Ele foi preso e será julgado como traidor, pois disponibilizou informação ultra-secreta para a mídia, e, dentro do código do exército americano, isso é uma violação às leis.

O que nos faz pensar sobre quem é o verdadeiro "inimigo" contra o qual os EUA tanto lutam. Não seríamos nós mesmos, já que querem guardar seus segredinhos? A maior força militar do mundo não pode ter autonomia, e eu espero, sinceramente, que Barack Obama, como líder maior desta força, reveja os princípios desta guerra. Guantánamo continua sendo uma ferida aberta, o Iraque não está sob controle, a crise continua, mas a indústria bélica a cada dia cresce mais.

Libertar Brad Manning será um sinal de que a liberdade é mais importante que qualquer coisa. Como diria o rei Roberto Carlos, "não importam os motivos da guerra. A paz sempre será mais importante".

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Eu invejo os fundamentalistas

Os fundamentalistas são dignos de inveja.

Dentro deles corre uma certeza inquebrantável de algo sobre o que nós, os céticos, apenas suspeitamos. Uma certeza que só as verdades absolutas podem oferecer para corações aflitos. Uma verdade absoluta que faz qualquer destes corações se acalmar.

Invejo aqueles que sabem o que é a vida. Não há mistérios, sofismas, não há perguntas. Apenas as respostas certas para eles. Os fundamentalistas têm seus corações amainados pelo toque divino da certeza contra o abraço demoníaco da dúvida.

Invejo os fundamentalistas. Em sua profunda inocência diante de um mundo perdido eles têm direito a ter esperança, pois ela é baseada na certeza de que o melhor ainda está por vir. Eles se agarram à boia da salvação de suas verdades e nelas encontram refúgio. Eu invejo quem não está a deriva no mar da dúvida. Invejo os fundamentalistas porque seus corações encontram repouso em braços mais fortes e suas mentes não se permitem questionar o porquê disso. Invejo os fundamentalistas, pois para eles, Deus não é uma questão, e sim a resposta para todas as perguntas.

Eu invejo os fundamentalistas, pois para eles acreditar faz sentido.