quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A cara gasolina brasileira




Ainda não estamos sequer em março e este já é o terceiro aumento que o Conselho Federal de Políticas Fazendárias, o Confaz, autoriza. Na Paraíba, o preço referência da gasolina passará a ser de R$ 3,19 a partir de primeiro de março. Hoje, o preço médio do combustível na cidade de João Pessoa, segundo levantamento da ANP, é de R$ 3,04.
O Confaz é formado pelos secretários de finanças dos estados e pelo ministro da Fazenda, exatamente os órgãos responsáveis pela arrecadação dos impostos e pelo uso do dinheiro público nos estados e na federação.
Quase quarenta por cento do preço dos combustíveis é formado por impostos. ICMS, PIS/Cofins, Cide, siglas que fazem a roda estatal girar. Dinheiro que deveria ser revertido em serviços de qualidade para o cidadão. Serviços que não refletem a pesada carga tributária suportada pelo brasileiro. Quanto mais caro o combustível para o cidadão, mais o governo arrecada.
E em um mundo de barris de petróleo sendo vendidos a preços baixos, como manter um gigante paquidérmico como a Petrobras? Uma empresa cujos altos custos precisam ser bancados pelo sócio maior: o governo. Que segue na contramão da realidade mundial, investindo em prospecção cara de petróleo, como a do pre-sal, seguindo uma decisão política de viver a ilusão da autonomia. Uma estatal mergulhada em denúncias de corrupção, mas que é motivo de discursos ufanistas de “o petróleo é nosso”, fomentando uma fantasia impossível de alcançar. Alimentando, no coração dos brasileiros, uma mentira na qual muitos preferem acreditar.
Mas é como diz o economista americano Thomas Sowell. O fato de que muitos políticos de sucesso são mentirosos, não é exclusivamente reflexo da classe política, é também um reflexo do eleitorado. Quando as pessoas querem o impossível somente os mentirosos podem satisfaze-las.
Enquanto isso, seguimos pagando caro pela gasolina, com muitos defendendo a manutenção do elefante verde e amarelo que é a Petrobras. Pense nisso enquanto estiver abastecendo seu carro. A não ser que o valor total da conta venha a tomar de terror e assalto todos os seus pensamentos.
Veja a matéria.

domingo, 25 de janeiro de 2015

São Paulo

Ela, que nunca me amou. Cidade fantasma, de veias sedentas de vidas. Esfomeada de sonhos e cativeiro de desejos.
Ela, desvairada, nunca entorpecida, sempre altiva, inimiga da humildade. Arrogante, prepotente, cidade que esmaga a gente.
Cidade que odeia, mastiga, com seus arranha-céus, oh, céus, dentes cinzentos, careados de brisa, chuva e sol quente, expurgando os que lhe desejam, como a broca que perfura a cárie.
Cidade de nervos à flor do asfalto, tua pele cinza, negra, branca, de mortes e vidas, tingida do vermelho do sangue do operário que acorda para te encontrar. Cidade veneno.
Ela, que odeio amar e de quem odeio as saudades.
Ela, que eu amo.

Feliz aniversário São Paulo!








(As fotos são minhas de minha última viagem à terra da garoa)



quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Carta para o Ricardo Kotscho

A carta abaixo é uma resposta à seguinte matéria do jornalista Ricardo Kotscho:



Kotscho, meu amigo!
Acho que posso te chamar assim, já que, em grande parte, você, indiretamente, moldou minha forma de pensar o jornalismo. Nas aulas do Dirceu Fernandes Lopes, este sim, seu amigo de longa data, sempre era destacado o "olhar com os olhos de ver", um axioma que ele dizia ter aprendido com você.

Mas, vamos ao que interessa? Pois bem... Sou de Santos e escolhi, quatro anos atrás, a Paraíba para viver. Especificamente João Pessoa. Vim com a cara e a coragem e estou, desde então, vivendo a maior aventura da minha vida.

Aqui encontrei tudo o que sempre procurei: espaço para desenvolver minha carreira no jornalismo, uma mulher que me ama, paz de espírito. Ainda há muito o que melhorar nesta terra, mas ela já é maravilhosa, especialmente por seu povo.

Ah, o paraibano, este povo alegre, corajoso, divertido, bem humorado, diverso. Nunca vi tanta diversidade, nem na Paulista ao meio dia nas imediações do MASP. Não. Nunca vi um povo tão "sem cara" quanto o paraibano.

Não sei se acho isso por conta do tempo que estou aqui, já que já estou imerso na cultura deste povo. Me converti em torcedor do Botafogo-PB e comedor de rubacão e tapioca, solto um "ouxe" com gosto e vivo de sorriso aberto, mesmo na dificuldade.

Nunca vou me arrepender da escolha que fiz. Foi aqui que encontrei minha paz, minha felicidade.

E não trocaria João Pessoa por nada neste mundo.

Quando quiser vir, seja bem vindo! Quero ter o prazer de lhe pagar uma carne de sol no mercado municipal, ou uma tapioca na feirinha de Tambaú.

Um forte abraço.

De um pretenso aprendiz.

João Thiago

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Minha terra de preconceitos

Ouvindo os relatos de uma amiga sobre o preconceito que ela, paraibana, sofreu na cidade de Santos.

Minha cidade é linda, mas o povo precisa melhorar muito. Santos não é o umbigo do mundo, e santista não é melhor que ninguém.

Depois perde turista e não sabe porquê. Fiquei muito triste ao ouvir a forma como ela foi tratada em uma lanchonete, um armarinho, por um motorista de ônibus e até um universitário.

Não é a primeira pessoa que ouço falando sobre o preconceito inerente ao povo santista.

Saibam que foram os nordestinos que levantaram o porto de Santos. Muitos dos avós e pais destas pessoas que têm preconceito são, na verdade, nordestinos, que, fugindo da miséria, em busca de uma vida melhor, foram para o "sul maravilha" tentar a sorte e viver a vida.

Ao conhecer o Nordeste eu senti uma ponta de inveja do povo daqui. Um povo carinhoso, carismático, alegre, muito, mas muito mais culto que nós, santistas.

Eu senti vergonha enquanto ela falava. Me sentia diminuído. Pensei em amigos e até parentes que tem este tipo de comportamento.

Pensei até nos meus próprios preconceitos, aqueles que, quando cheguei aqui, ainda carregava.

"Nordestinos são burros, feios, comem calango e andam de jumento. Falam errado e são engraçados".

Eu era um idiota. Sempre que ouço este tipo de história eu peço desculpas pelo preconceito das pessoas que nasceram na mesma região que eu.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A hipocrisia nos lábios e nas mentes

Bitoca!
Não vi o beijo entre as duas moças da novela das nove na Globo. Acabou que eu estava dando bitocas em outra coisinha linda, minha sobrinha-afilhada, recém nascida, que fico pajeando feito tio-padrinho babão.

Vi a foto das duas, Giovanna Antonelli e Tainá Müller dando o selinho que selou (!) o pedido de casamento que marcou o capítulo daquele dia e ouvi o silêncio. Nas redes sociais, nada de crentes excomungando a globo, nem o movimento gay soltando fogos.

Lembro de outro beijo (este eu vi), dado no último capítulo da outra novela. Dois homens, Matheus Solano e o outro que eu não lembro. Lembro do beijo que selou o relacionamento.

E lembro do calor das caldeiras do inferno, que se abria debaixo dos pés dos dois pecadores malditos para os queimar por toda a eternidade por estarem demonstrando seu amor em público. E lembro do calor dos fogos soltados pelo movimento gay pelo mesmo motivo.

Dois pesos. Duas medidas.

Meus amigos gays e minhas amigas gays sabem da diferença que existe em relação a suas demonstrações de amor e afeto. enquanto as pessoas torcem para ver um beijo delas, vira-se a cara para um beijo deles. Como se um caso fosse natural e tolerável e o outro horrendo e deplorável.

Este pensamento se refletiu nas reações das pessoas aos dois beijos. Eu nem cito o beijo do SBT que é mais ou menos como gol em amistoso do XV de Piracicaba contra o Jabaquara. Não tem valor nenhum.

Olhando para o povo, não o vejo "se acostumando", mas mantendo em voga sua habitual hipocrisia. O Brasil é aquele tiozão que não deixa a filha sair de minissaia mas gruda os olhos na TV durante os desfiles de carnaval, gosta de espiar a vizinha pela janela e acha que a mulher tem que aceitar suas escapadinhas para visitar as "filiais".

Uma tolerância de conveniência, afinal, plastica e culturalmente falando, é muito mais bonito ver duas mulheres se beijando do que dois homens.

O engano é achar que o silêncio é anuente à causa gay. Não se enganem! As pessoas não estão mais tolerantes. Só estão mantendo o status quo, persistindo no mesmo velho pensamento de sempre, alimentando suas fantasias sexuais ultraconservadoras que diferem o "menàge bom" do "menàge ruim" enquanto parecem concordar com a liberdade de cada um de amar aquilo que acha certo.

Aos amigos gays, os incentivo para que continuem demonstrando publicamente (aqueles que querem, lógico) seu amor e seu afeto, sem vergonha e sem medo de nós, héteros. Às amigas, encorajo-as a fazer o mesmo. Não apenas para romper as ligas que nos prendem a nós, heteros, a nossa forma de pensar o amor, mas, também, e principalmente, para poderem amar de forma livre e nos motivar a fazer o mesmo.

Mais amor! Menos julgamento e hipocrisia! Para que os beijos, um dia, sejam mais do que símbolos de libertação, que consigam ser demonstração de carinho, afeto, desejo e até de amor.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Guess Who



A música de B.B. King que mais me marca é uma balada blues açucarada, bobinha que só.

Mas foi a música que me acompanhou durante muito tempo, me ajudando a criar, escrever. Eu não tinha dinheiro para comprar CDs, e em Itariri e Peruíbe não chegava muita coisa. Então, quando uma editora lançou uma coleção de jazz e blues eu peguei logo o primeiro encarte.

Lá estava um disco do Concerto Midem em que Pat Matheny, BB King e Dave Brubeck transformavam minhas dores em canção (a coleção era a Jazz Masters, obrigado, Google!). Não tinha muito mais coisa que chegava às minhas mãos. O que aparecia na TV, especialmente na TV Cultura, eu transformava em fitas K7 no meu aparelho de som. O Concerto Midem foi uma das coisas que compramos para ter mesmo.

O disco, de um virtuosismo inacreditável, tinha um momento de grande simplicidade. Guess Who. Uma declaração de amor de um homem que esperará a eternidade amando uma mulher, esperando por ela. Ele pede para que ela abra o coração.

Na época (e lá se vão quase vinte anos), eu não tinha internet, tinha um inglês pobre e não conseguia traduzir o sotaque do Rei. Não entendia a letra, mas entendia o sentimento e visualizava um casal apaixonado dançando a última música antes que o rapaz fosse enviado para a guerra, ou algo assim. Um clichê. Exatamente como a música.

Ela me acompanhou nas madrugadas em que passei sentado na mesa de vidro de casa, olhando para o papel branco e buscando dentro de mim o que queria colocar para fora. Guess Who me traz isso. A memória dos contos e dos poemas da minha adolescência. As histórias melancólicas dos amores perdidos e não vividos.

Li a letra hoje e achei bonita. Simples, clichê e bonita. Mas nada é comum quando se trata do Rei. Mesmo a melancolia ganha novos tons. Sem conhecer o significado da música dei a ela uma história. A tradução da letra não a mudará. Aquilo que guardo em mim, da época de primeiras palavras não permito que se esvaia jamais.

quarta-feira, 19 de março de 2014

O escitor e a pipa

Com o tempo, as fantasias que nos cercam na infância vão sendo deixadas de lado. Vamos nos tornando mais austeros e maduros. Esta maturidade nos leva à faculdade, ao primeiro emprego, à casa própria, ao carro, à família.

No entanto, dentro do coração de cada um de nós, ainda existe uma pipa com rabiola enrolada que só está esperando a primeira fieira de fantasia para poder adejar contra o céu azul.

Escritores mantém essa pipa voando alto, sempre. São adultos com alma de criança. Precisam da fantasia e da imaginação pulsando forte para poderem viver. Diferente da maioria das pessoas, buscam sonhos, e não realizações.

Como a criança que transforma um galho em espada e sai pelo mundo para conquistar reinos e castelos, o escritor cria, com pena, mundos para conquistar, para se realizar.


Escritores são crianças em corpos de adultos que, em detrimento de uma vida comum, soltam pipa de vez em quando usando uma folha de papel em branco como céu para ser feliz.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Sucesso e esforço

Tem um certo tipo de sucesso que não quero fazer.

É o sucesso que depende do fracasso alheio. Conquistado por meio das pisadas sobre a cabeça de tantos outros que lutaram antes de mim. É o sucesso pelo sensacionalismo e não pela ética. Pelo marketing pessoal e não pela qualidade verdadeira. O sucesso sem esforço, conquistado na base do jeitinho, da lei de Gérson, do migué, da desonestidade. O sucesso pelo poder, pelo dinheiro, para poder estar acima dos outros.

O sucesso pelo sucesso, e nada mais.

Durante a vida, abrimos mão em favor de muitas coisas. Muitas vezes sem nem sequer notarmos. Quando vemos, a lama já está batendo no queixo e fica difícil sair da sujeira e tentar permanecer limpo. Sem percebermos, vamos nos atolando na zona de conforto de onde conseguimos um favor aqui, um benefício ali, uma "ajudinha" acolá, e, quando vemos, estamos tão presos a favores que perdemos o direito e a credibilidade. Quando pensamos estar indo para a frente estamos, na verdade, vendendo mais um pouquinho da nossa alma para o diabo.

Construir uma carreira em cima de critérios como credibilidade, ética e qualidade tem seu preço. Um preço  alto pelo qual temos de estar dispostos a pagar.

Sucesso? Não façamos questão dele. Vamos trabalhar pelo prazer de fazer, pelo gosto de fazer diferente, de vencer a si mesmo, de sair da zona de conforto que nos prende. Não vamos buscar conquistar uma grande casa, um carro do ano, um jatinho ou um barco para navegar por aí. Aqueles que fazem por fama, fortuna, poder, recebem seu prêmio por aqui mesmo.

Eu espero que, no futuro, eu seja lembrado como aquele que não se corrompeu. Mas que isso não faça de mim alguém especial, pois quero fazer, desta forma, parte de um grupo muito grande. O grupo daqueles que não se venderam.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Lulu, o feminismo mais machista que a internet pode proporcionar


As mulheres não estão querendo criar um espaço seu na sociedade. Estão querendo, sim, ocupar o espaço que é do homem.

Lembro da música de Joan Jett: "I wanna be where the boys are".

Mulheres deveriam querer estar onde devem estar, lutando por um espaço seu, marcado por suas características.

Lulu é a masculinização do feminino. É o princípio idiota do Femen, que põe peitos para fora para dizer que o homem não tem direito sobre o corpo da mulher. É a idiotização da gentileza, que determina que, ao abrir uma porta, puxar uma cadeira, ou ser gentil com uma mulher, o homem está alimentando um comportamento machista.

Este femimiminismo é diferente da luta honesta da mulher contra o homem opressor. Ao invés de reificar (transformar em objeto) o homem, a mulher deveria lutar para deixar de ser um.

O machismo é tão incutido nas mentes das mulheres que elas não enxergam quando estão lançando mão dele.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Lucy Alves, Parahyba

Lucy é uma xilogravura de sons curtidos em couro e madeira. É gosto de rubacão, queijo coalho, suco de graviola e jambo colhido nas ruas de João Pessoa.

Lucy é a bila amarela descendo na Barragem de São Félix em por do sol verdadeiro, e não plastificado ao som de um bolero qualquer.

Lucy é boneca de pano xaxando com sanfona em punho. É bemquerência no arroxo do forró.

Cada vez que toca esta sanfona me sobe um arrepio. Lucy é poesia com sorriso leve de quem não NEGA quem é.




Não consegui encontrar o vídeo novo, (dá para ver aqui, ó), mas a interpretação dela para "Qui nem Jiló", que está aí em cima, é de arrepiar. Um primeiro verso que faz toda a diferença, com um "gente" falado de entre os dentes. A coisa mais linda.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Papel social

A criança na Somália
Eu usava a história da foto de Kevin Carter quando dava aulas e palestras e falava sobre responsabilidade social e ética profissional. Quando perguntam até que ponto um fotógrafo tem que ir para cumprir seu trabalho e quando este limite é extrapolado e ele precisa se responsabilizar enquanto ser humano por outra vida que está correndo risco diante dele.

Kevin Carter cobriu as guerras étnicas que preconizaram o fim do Apartheid na África do Sul no início dos anos noventa. Ele e outros três fotógrafos de agências internacionais eram conhecidos como "Clube do Bang-bang" pois estavam sempre testemunhando mortes e conflitos e suas armas eram as câmeras.

Nestes conflitos, um dos colegas de Kevin foi alvejado. O que os outros três fizeram? Fotografaram o corpo do fotógrafo sendo carregado para a ambulância.

A criança vietnamita
A vida do menino pode ter se perdido, desconheço seu destino, e uma vida é uma vida, mas foi a foto de Kevin Carter o primeiro passo para que o mundo efetivamente olhasse para a fome no norte da África. Assim como a imagem da menina queimada de napalm foi um dos momentos mais marcantes da guerra do Vietnam.

Sem as imagens não teria sido possível repensar os fatos que elas relatam. Segundo um outro fotógrafo que estava no local, a fotografia teria sido um clique imediato, e Kevin expulsou o urubu assim que a imagem foi feita, levando o menino para um local seguro, onde foi alimentado.

O papel do fotógrafo é, antes de tudo, registrar a história para poder transforma-la. Mas é preciso ser cínico demais para ser indiferente à dor alheia. O sofrimento de Carter, que se matou em decorrência de problemas financeiros e por não conseguir conviver com a lembrança da dor que testemunhou, advém desta questão.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O amor e o homossexualismo nos tempos da cólera

Quando eu ainda namorava minha ex-esposa, muitos e muitos anos atrás, em um shopping de Santos, enquanto nos apaixonávamos em um banquinho de frente para um canto bem escondido do shopping (nem foi um amasso assim tão grande), um segurança chegou para nós e pediu que não demonstrássemos tamanho "entusiasmo" em nosso amor.

Sério. Era só um beijo entusiasmado. Nada demais, mas ele pediu que fizéssemos isso. Por se tratar de um lugar público, consideramos apropriado acatar a sugestão do policial e continuamos apenas conversando no banco de mãos dadas.

Isso já tem mais de dez anos. Dez anos atrás, nossa demonstração de amor era chocante para as senhoras que frequentavam os shoppings de Santos. No entanto, ainda hoje, eu não só respeitaria como acataria a decisão do segurança de nos pedir para parar. Acho que a minha liberdade termina onde começa a do outro, e, em um lugar público, isso deveria ficar mais evidente.

Pois bem, o preâmbulo é para, depois de algum tempo, emitir uma opinião sobre a declaração de que os seguranças do Shopping Tambiá seriam "instruídos" a impedir beijos homossexuais na praça de alimentação do shopping.

Não sei como eles agiriam diante deste fato. Não sei se são violentos (os defensores dos direitos dos homossexuais dirão que sim), não sei se são estúpidos (os defensores da moral e dos bons costumes dirão que não), e, sinceramente, não é isso que estou querendo discutir.

Seguranças que são bem treinados não agem com violência. Se a empresa que presta serviço ao Shopping não sabe treinar seus agentes, então o Shopping precisa encontrar outra agência para este serviço.

Pois bem. Se eu e minha esposa fôssemos impedidos de ter demonstrações efusivas de afeto, como beijos demorados, por exemplo, não acharia ruim. Certas demonstrações de afeto são, mesmo, constrangedoras para as pessoas em volta. E certas situações ainda exigem uma margem de compreensão que nossa sociedade, infelizmente, ainda não tem.

Se por um lado a sociedade não se sente preparada para certos tipos de demonstração de afeto, por outro, todos, e isso inclui homossexuais, têm direito, sim, a demonstrar carinho pela pessoa amada em lugares públicos. Não existe qualquer legislação que proíba as pessoas de fazerem isso em lugar público, desde que mantenham o decoro e tenham bom senso. Nada no Brasil impede o beijo gay, a não ser a cólera dos conservadores, a ira das bancadas evangélicas e as demonstrações hipócritas de pudicícia no país da bunda e do carnaval.

A declaração da dona do Café São Brás mostra que muitas pessoas ainda não estão prontas para ver que o amor, hoje, é demonstrado de forma bem diferente do que era no passado. No entanto, mesmo sem a devida "preparação", que seria o bom senso de respeitar as escolhas pessoais do outro, elas terão que ver e terão que aceitar. O mundo mudou, e não adianta encolerizar-se contra isto. É um direito e todos podem demonstrar seu afeto em público.

Só não exagerem, por favor.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Gravidade

A luta para nascer é retratada de forma inovadora
Sandra Bullock é como um feto lutando contra intempéries para nascer. Uma borboleta que, saindo do estado de lesma, encontra, no espaço, o casulo para tornar à vida.

Ficam para trás todas as amarguras. Só o que vale é sair do ventre, tornar à Terra e encontrar, nela, novas razões para viver.

A cena logo após ela entrar na estação espacial defende esta interpretação. Após livrar-se das roupas para caminhadas espaciais, em posição fetal, cercada de cabos de suporte de vida, cordões umbilicais que a mantém viva no espaço, ela descansa. Mas o parto é traumático, doloroso, difícil e sofrido, e a personagem precisa deixar o conforto em que está para lutar pela vida.

Os planos-sequência merecem a reverência que receberam de todos os críticos no mundo. Basta ver o trailer para entender a tensão existente no filme, e o desafio que deve ter sido filmar esta proposta. O 3D funciona de forma perfeita, lançando pedaços de satélites, naves, braços de captação, sondas, metal e tudo o mais contra o fundo escuro do espaço que absorve.

Alfonso Cuarón encontra, na estética silenciosa do espaço, o ruído necessário para nos fazer acreditar que é possível renascer dos piores problemas que enfrentamos. Basta não desistirmos, basta seguirmos em frente, basta acreditarmos que podemos arrebentar o casulo e voar alto novamente.

Ou, no caso, caminhar sobre a areia de uma praia perdida em algum lugar de um mundo que é nosso para redescobrirmos. Estar vertical após tanto tempo deitada, deixar as águas e migrar para a terra, crescer, evoluir, renascer.

Delicadeza

Minha vista
Alguém nas imediações do prédio ouve, todos os dias, neste mesmo horário, por volta das 9h40, a música "Aquarela", do Toquinho.

Não sei o que os outros trabalhadores pensam, mas para mim é um alento diante dos ruídos da cidade que me cerca.

João Pessoa não é nenhuma selva de pedra, e as pessoas não são indiferentes umas às outras, mas é interessante ser alcançado por uma sutileza como esta de vez em quando.

Especialmente quando, presos em escritórios, somos massacrados pelo stress do dia a dia.

Não que eu tenha muito o que reclamar, também, do meu escritório. A vista é uma panorâmica do centro da cidade, e o horizonte desaparece no meio da mata atlântica de um lado e do mar do outro, mas não é só de vista que se faz a harmonia em um local de trabalho.

São as delicadezas do dia que nos levam a acreditar na vida de forma a valoriza-la. No meio do trânsito caótico de João Pessoa (sim, não tem o tamanho de São Paulo, o que me faz chegar à conclusão que eu ficaria louco se morasse na metrópole), lembrar que alguém ouve Toquinho durante o dia me deixa muito.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Se Deus me ama do jeito que eu sou porque os seus pretensos servos tentam me mudar?

 Se Deus me ama do jeito que eu sou porque os seus pretensos servos tentam me mudar?

Pensei nisso hoje de manhã enquanto vinha para o trabalho e vi um adesivo de carro que dizia "Deus te ama como você é".

Se o amor de Deus é incondicional e irrestrito como se diz, e ele me ama como eu sou, então porque seus pretensos seguidores insistem para que passemos por uma transformação? Uma mudança completa de vida e de caráter?

Acho importante que nos livremos dos vícios, que desenvolvamos domínio próprio, que aprendamos a viver de forma mais austera, mas não aceito que se renegue o prazer, o amor, seja ele de qualquer forma que for.

Não se pode cobrar uma mudança de vida para que o cidadão se adeque a uma visão de mundo que contradiz a própria essência do que é pregado por ele.

Lembro, dos meus tempos de altares e púlpitos, e egos humanos sobrepujando a visão de Deus, de que uma frase muito comum era "venha como está".

Depois, uma série de mudanças era veladamente cobrada. Deixe o cigarro, deixe as mulheres, ouça esta música, leia este livro, pense neste assunto, vote neste político.

Tudo de acordo com uma "visão de Deus", que, em minha visão pessoal, era equivocada e superficial.

As pessoas passavam a se parecer. Para fazer parte daquele grupo, daquele clube, você passava a se vestir como eles, falar como eles, pensar como eles.

E então, aquele a quem Deus amava, abria mão de si mesmo em nome de uma visão de grupo. Permitia-se mudar para se sentir acolhido, aceito, fazendo parte de algo.

Se Deus me ama do jeito que eu sou, não vou mudar para satisfazer um grupo de narcisistas, que precisam refletir no outro a imagem "perfeita" de si mesmo.