Pôr do sol
Um pouco acima do horizonte a bola alaranjada desce devagar por trás de poucas nuvens. O céu, tingido de um laranja azedo, escuro, meio casca de manga madura, vai retingindo-se de um azul escuro quase pretume do outro lado. Desce a bola amarela pequeninizando-se na linha da água, quase que no fundo de um mar sem fundo, vê-se seu reflexo dourado no mar. É vertical o triângulo de oiro que tinge a água verde claro do braço de rio salgado que banha aquelas bandas. Sentado na casa da Pólvora, espero, calmo, o dia acabar.
Do outro lado da cidade, correndo por alguma coisa, sem olhar céu laranja e azul escuro, já salpicado pelas primeiras bolinhas de luz branca que mancham o pano preto estendido, ela corre buscando o que fazer. É um dia especial, um dos dias em que o por do sol pode esperar, pois a vida tem que seguir seu rumo, seu passo, inexoravelmente.
Olhando para o sol, contemplando o infinito multicolorido e gracioso que baila na água do braço de mar lá em baixo e no céu lá em riba, só meu braço em volta do seu abraço era o que eu queria agora. o céu, já quase todo tomado pelo azul escuro, ainda que resista a bola amarela e vermelha que desce lá longe, no fim do fundo do horizonte, já é roubado pelas estrelas. A lua aparece fraca do outro lado. "Bom, céu de estrelas. vai dar para ver o desenho da Via Láctea no céu", penso, egoísta, naquele céu que é só para mim.
Ela ainda não viu, mas deve ter uma estrela com o nome dela reluzindo em algum lugar. Ela é a que une os outros em volta de si, com um sorriso que vale mais que uma lua. Drummond diria que ela tem boca de luar minguante, de sorriso certo e agradável. Penso que valeria mais olhar para um sorriso dela do que para mil pôres de sol sozinho na casa da pólvora. Enquanto ela corre, sei lá prá que, estou a contemplar.
Contemplo o céu, que já chegou à sua escuridão. Contemplo as estrelas, que já estão lá. Contemplo o tempo, que, sem tempo, se deixou levar. Devaneio ela ao meu lado, unindo-nos, apenas, nada mais.
Mas não.
O sol já se pôs. Levanto-me sabendo que ela não me espera em algum lugar. Tomo meu caminho. Volto ao meu sozinho. Solidão que já cansou.
(fazia tempo que não escrevia contos)
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